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Apelo da mãe de criança trans sob a lei que proíbe discussão de gênero em Terezina

A mãe de Paty* escreve uma carta ao prefeito de Teresina argumento sobre o projeto de lei Projeto de lei n° 20/2016, de autoria da vereadora Cida Santiago (PHS), fica proibida a distribuição, utilização, exposição, apresentação, recomendação, indicação e divulgação de livros, publicações, projetos, palestras, folders, cartazes, filmes, vídeos, faixas ou qualquer tipo de material, lúdico, didático ou paradidático, físico ou digital contendo manifestação da ideologia de gênero nas escolas municipais de Teresina.

Discussão já estabelecida no páis com outras propostas retrógadas e conservadoras, a família desta criança de cinco anos faz um apelo pessoal já que entende que, sendo sancionada, essa lei pode comprometer a integridade de sua filha, e tantas outras crianças que não se adequam ao binarismo pré-estabelecido na sociedade.

“Onde fica a orientação do MEC para trabalhar com temas transversais? O que será das outras crianças como Paty*? Como a administração municipal pretende fazer a inclusão nestes casos? O senhor já parou para pensar que crianças também sofrem homofobia e transfobia? Com discussões tão avançadas sobre o tema, por que sancionar essa lei que atrasa o desenvolvimento da sociedade? Pois não falar no assunto não vai fazer Patys, as Lauras, as Milenas e os Vitos desaparecerem da sociedade”, escreveu ela, “fica o apelo de uma mãe pela igualdade”.

“Você não falar sobre transgênero não vai fazê-las sumir, vai apenas excluir essas pessoas. A gente não pode andar para trás, temos que evoluir. Com a aprovação de uma lei como essa, as Patys ficarão desamparadas. Por desconhecimento, você vai matar a vida escolar de um ser humano”

Infelizmente esse projeto foi aprovado pela Câmara de Teresina e aguarda apenas a sanção do Prefeito de Teresina, Firmino Filho (PSDB). Com o mesmo argumento de colocar estas (e muitas outras!) pessoas em sérios riscos, grupos ligados aos direitos humanos, direitos LGBTs, bem como Ministério Público pediram o veto completo ao projeto.

A mãe de Patrícia relata que, com menos de um ano, Paty* preferia as bonequinhas, copos, e os pratinhos rosa da irmã aos seus utensílios azuis. “Com um ano e meio de idade, ela sempre pedia para vestir as roupas da irmã, assim como fazia da blusa da escola um vestido”, disse.

“Próximo de completar três anos, um dia ela disse que se chamava Raquel. A gente chamava pelo nome e ela dizia que seu nome era Raquel. A gente tentava conduzir para o padrão do gênero masculino, mas sem nunca dizer que era errado. Ela tinha brinquedos de menino, mas só queria brincar com os de menina”.

Aos quatro anos, a mãe de Patrícia é surpreendida pela filha com uma pilha de roupas: “Ela disse que não iria mais vestir roupas de menino. Ela fez um bolo de roupas e ficou apenas com duas peças. Argumentei que ela ficaria sem o que vestir e ela respondeu que dividiria as roupas com a irmã”.

A decisão dos pais sobre a transição da filha foi, além do ato de jogar as roupas,  uma conversa com a cunhada médica. A mãe passou a pesquisar sobre o assunto, assistir documentários e então tomou consciência de que seu filho era uma criança trans.

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“A gente já tinha acompanhamento psicológico desde os quatro anos. Quando percebi que era irreversível, que meu filho era uma menina, precisava que um profissional me desse sua chancela, que me ajudasse a observar, lidar, acompanhar, entender tudo isso e conduzir a situação da melhor forma possível”, contou a mãe.

Após um ano conturbado de “transformação”, Paty entrou em 2016 em uma nova escola, dessa vez com nome social e sem desconfiança daquelas que já a viram como um menino.

“Como a gente tentava impor um padrão social, ela não dormia, passava o dia inteiro chorando, passava o dia estressada. Todos achavam que o tinham direito de dizer que ela estava errada. Quando ela passou a se vestir como menina, tudo melhorou. Depois que ela mudou de escola, ela se tornou outra criança, uma menina feliz. Aceitei que minha filha fosse menina para que ela pudesse ser feliz”, contou.

“Foi duro entender e aceitar que minha filha é uma criança trans e foi por amor que tive que ‘matar’ o menino dentro de mim para que a Paty nascesse”, escreveu.

A mãe conta que a “transição” começou na escola onde entrou ainda como menino, que as crianças entenderam e assimilaram Paty, mas o mesmo não aconteceu com os adultos: “Paty foi matriculada na escola ainda um menino, quando começamos a fazer a transição foi difícil para os adultos entenderem, enquanto as crianças aceitaram a novidade normalmente”.

“Nenhuma das escolas que eu visitei (e podia pagar) me acolheu. Uma chegou a me pedir um laudo psiquiátrico alegando a doença da minha filha; em outra as vagas desapareciam ou eram marcadas reuniões que nunca aconteciam. Estava claro que ninguém sabia lidar com o assunto”.

Com a ajuda do Ministério Público do Piauí, a família foi procurar uma escola pública que tem obrigação de ter políticas inclusivas, “Foi a melhor atitude que tomei”.

“Senhor Prefeito, a questão de gênero é uma realidade na rede pública Municipal, a Paty é a prova disso. Por isso, venho através desta pedir o veto da lei que veda a distribuição, exposição e divulgação de material didático contendo manifestações de gênero nos estabelecimentos de ensino da rede pública Municipal, pois é contraditório existir leis de inclusão de pessoas LGBT e não poder falar sobre elas”

*Patrícia é um nome fictício para preservar a identidade da criança

 

Fonte: G1/ Foto: Fernando Brito/G1

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