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Crítica à hegemonia heterossexual

Revista Cult> Edições > 193 > ano 17 > agosto 2014

A incorporação da Teoria queer entre nós se iniciou pela educação, uma área afeita à reflexão sobre a formação dos sujeitos.
As origens da Teoria Queer remontam ao fim da chamada Revolução Sexual, dos movimentos liberacionistas feministas e gays e do – hoje sabemos – curto período de despatologização da homossexualidade, retirada da lista de enfermidades da Sociedade Psiquiátrica Americana em 1973. No início da década de 1980, Monique Wittig analisava a mente hétero, Adrienne Rich denunciava o caráter compulsório da heterossexualidade enquanto Michel Foucault trabalhava nos volumes finais de sua história da sexualidade, quando emergiu a epidemia de AIDS e, com ela, o maior pânico sexual de nossa história.

A homossexualidade passava a ser repatologizada em termos epidemiológicos. Deixara de ser vista como uma forma de loucura, mas passava a ser encarada como suposto vetor de contaminação coletiva. Néstor Perlongher abre seu livro O que é AIDS? (1987) afirmando que um fantasma rondava o Ocidente, portanto, parafraseando Marx e Engels em O Manifesto Comunista, para analisar o que criava o espectro do desejo homossexual. Seu feito nesse livro curto e certeiro foi compreender a epidemia em seus aspectos político-sociológicos sublinhando como a AIDS servia de subterfúgio para uma perseguição renovada ao desejo homossexual e um reordenamento da sexualidade sob o controle heterorreprodutivo.

Foi em meio ao refluxo conservador detonado pela epidemia que pensadores/as de diversos países desenvolveram análises inovadoras sobre a hegemonia política heterossexual. Enquanto no Brasil, em meio ao retorno à democracia, discutia-se a criação de um sistema universal de saúde e desenvolveram-se respostas públicas à epidemia que, mais tarde, resultariam em um dos melhores programas de AIDS do mundo, nos Estados Unidos a resposta governamental à urgência de saúde pública foi desarticulada e empreendedores morais reeditaram cruzadas anti-homossexuais.

Lá, a resposta da sociedade civil foi a criação de movimentos como o ACT-UP e o Queer Nation e, ao mesmo tempo, na academia, muitos/as intelectuais passaram a refletir sobre o cenário político e cultural em que, de forma renovada e potencializada, a homossexualidade ressurgia como uma espécie de ameaça à coletividade. No Brasil, Perlongher foi uma voz quase solitária em seu radicalismo político que denunciava os intuitos biopolíticos que ganhavam força e passavam a moldar até mesmo a área de pesquisa em sexualidade. Em muitos outros países, vozes como a de Perlongher ecoaram enquanto no contexto norte-americano chegaram a formar um conjunto mais ou menos articulado de intelectuais cujas reflexões, a partir de 1991, começaram a ser chamadas de Teoria Queer.

O uso de uma injúria (queer) dirigida a homossexuais e, em especial, a dissidentes de gênero, para denominar uma corrente de reflexão denota o impulso ressignificador e insurgente que dava origem a um pensamento radical sobre a sexualidade. É possível compreender a Teoria Queer como um rótulo que busca abarcar um conjunto amplo e relativamente disperso de reflexões sobre a heterossexualidade como um regime político-social que regula nossas vidas. Tratam-se de regulações sexuais e de gênero socialmente impostas que criam e mantém desigualdades de toda ordem, em especial no menor reconhecimento político e de direitos daquelas pessoas cuja sexualidade e/ou o gênero entram em desacordo com as normas vigentes. A ordem política e cultural da heterossexualidade compulsória garante os privilégios políticos, culturais e até econômicos daqueles/as que vivem dentro de suas prescrições.

Desde fins da década de 1960, autores/as em diversos contextos nacionais começaram a compreender a sexualidade como política e socialmente criada, portanto não mais como sendo da esfera do biológico, psíquico ou natural. No entanto, boa parte dessa produção acadêmica emergente se configurou como estudos de minorias, os quais – no intuito de criar pesquisas sobre sexualidades dissidentes – deixaram de problematizar a heterossexualidade. Em outras palavras, até contra seus intuitos, boa parte dos estudos gays  e lésbicos serviram para reiterar a visão hegemônica de que a heterossexualidade seria a ordem natural do sexo.

O feito do pensamento queer foi superar esse enquadramento criando um pensamento político voltado para a crítica da ordem social como também uma ordem sexual. Autores/as como Eve Kosofsky Sedgwick, Judith Butler, David M. Halperin e Michael Warner forneceram um novo vocabulário para compreender sexualidade, gênero, desejo e relações de poder. Termos como heteronormatividade e heterossexismo e noções como a de uma epistemologia do armário e a de uma matriz heterossexual alargaram nossa compreensão da sexualidade e do gênero, suas articulações, assim como suas relações com outras diferenças e desigualdades.

No final do milênio algumas pesquisadoras brasileiras começaram a incorporar criativamente esse vocabulário, dentre as quais se destaca Guacira Lopes Louro, profissional da área da educação que travou contato com fontes queer durante um período de pesquisa na Universidade da Califórnia. Louro sintetizaria suas reflexões em um influente artigo publicado na Revista Estudos Feministas, em 2001: “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação”. A acolhida dessa vertente de pensamento na área educacional tem relação direta com o processo de universalização do ensino básico no Brasil e a consequente emergência de problemáticas de gênero, sexualidade e raça-etnia sufocadas durante o regime militar.

A recepção brasileira da Teoria Queer se deu – desde o início – articulada às nossas necessidades e problemáticas buscando incorporá-la em práticas sociais. Na década de 2000, a disseminação queer se deu de forma progressiva e transversal nas mais diversas áreas do conhecimento: da educação passando pela sociologia, a psicologia, a comunicação, a antropologia, a história, a linguística e ecoando até em áreas mais sisudas como o direito. Em 2007, com a publicação da primeira compilação de estudos queer brasileiros na revista Cadernos Pagu, já estava consolidada nossa incorporação de um novo léxico teórico, a expansão do espectro de sexualidades reconhecidas e se antevia uma possível sofisticação das demandas políticas envolvendo as homossexualidades e as dissidências de gênero.

A crítica à teoria social

Atualmente, questões de gênero e sexualidade ganham reconhecimento e centralidade em pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento e, graças às fontes queer, não apenas na forma do estudo de supostas minorias sexuais, antes questionando a própria pressuposição de que a heterossexualidade seria a ordem natural do desejo. Há pouco mais de duas décadas, a hegemonia heterossexual passou a ser contestada não apenas em termos políticos, mas inclusive como tendo delimitado por mais de um século o que compreendemos como a sociedade ou a cultura.

As ciências humanas construíram seu campo de investigação, teorias e conceitos assentados na heterossexualidade. A antropologia, a ciência política e a sociologia partiram da pressuposição de que a heterossexualidade instituía os limites da vida social e do que seria possível investigar. Até mesmo a psicanálise, com sua noção de sujeito mais dinâmica, mesmo despatologizando o desejo homossexual criou teorias que apontam para a heterossexualidade como o desenvolvimento esperado e normal do sujeito. Em comum, ciências sociais e psicanálise partilham de uma ontologia do social baseada em um suposto tabu do incesto, o qual além de nunca ter sido efetivo serviu para ocultar uma outra proibição primária: a do desejo homossexual.

As ciências humanas, desde fins do século 19, delimitaram o social e o psíquico como sinônimos de heterossexualidade, no fundo, uma ordem política e social fundada no desejo masculino voltado para a reprodução. Dentro desse círculo mágico sob o controle masculino e heterossexual formas de desigualdade de gênero e sexuais foram – no máximo – abordadas como questões minoritárias, leia-se secundárias e apenas solucionáveis sob a ótica dominante. A Teoria Queer, bebendo nas fontes feministas, gays e lésbicas mais radicais da década de 1970 e 1980, desafiou essa ontologia do social trazendo ao discurso seus limites e interesses. Primeiro, pela já conhecida crítica ao fato de que o tabu do incesto mascara a proibição histórica da homossexualidade desde o século 19 criando uma espécie de mito originário da cultura que torna a heterossexualidade inquestionável.

Na perspectiva queer, a heterossexualidade não é natural, tampouco seu domínio desprovido de relações de poder. Elementos teóricos e conceituais adequados permitem que elas sejam objeto de análise crítica. A sociedade ou a cultura como as conhecemos delimitou os limites do pensável, mas como observou Judith Butler em Problemas de gênero, o impensável não está fora da cultura, antes dentro dela, apenas de forma dominada. É possível pensar de forma insurgente pelas bordas do social, na região que foi propositalmente foracluída dele e, muitas vezes, relegada até mesmo ao reino do abjeto.

Os estudos queer têm se caracterizado por criarem conhecimento a partir do abjeto, por meio do que a sociedade considera como ameaçando sua visão idealizada sobre si própria. Nesse sentido, o abjeto vai além da sua definição psicanalítica como a esfera do que causa náusea e nojo e alcança a de um espaço-condição que problematiza versões idealizadas que se instituíram como o que a maior parte da teoria social ainda compreende como sociedade. Em suma, a Teoria Queer provê ferramentas conceituais e teóricas para desconstruir ontologias do social e da cultura construídas em uma perspectiva masculinista e heterossexual.

De forma geral, há ao menos duas características dos estudos queer que permitem compreender seu poder analítico: o método desconstrutivista e a problematização do sujeito. Enquanto as ciências sociais, em seu intuito de desnaturalizar o social, têm como marca formas variadas de construtivismo social e histórico, o pensamento queer aposta na desconstrução como meio mais afeito a esse mesmo empreendimento. A despeito das boas intenções, o construtivismo social tendeu a corroborar o que buscou compreender enquanto a desconstrução parte da crítica da ordem existente para problematizá-la.

Além disso, nas ciências sociais e humanas, a concepção de sujeito dominante é pouco dinâmica em comparação à da psicanálise, a qual, por sua vez, é marcada por limites como uma hegemonia da perspectiva masculina sobre a psique assim como da tendência à heterossexualização do sujeito. Na perspectiva queer, é possível reconstituir o pensamento psicanalítico por meio de uma nova topografia psíquica não-masculinista e não-heterossexista. Assim, por meio da desconstrução e uma concepção de sujeito mais sofisticada, abre-se espaço para a superação do construtivismo social assim como do histórico binarismo que marca a teoria social há mais de um século: a oposição estrutura versus ação social.

Ao menos no Brasil, onde as ciências sociais historicamente se distanciaram da psicanálise, a relação entre o social e o psíquico tendeu a permanecer uma zona cinza que impede a exploração dos contextos em que se dá a generificação e a sexualização dos sujeitos, sobretudo em sua fase formativa, a qual tende a ser achatada por concepções como a de “socialização primária”. Mesmo lidando com sujeitos adultos, predominam análises baseadas em pressuposições correntes, apenas sofisticadas pela exploração de seus componentes culturais e históricos.

Como já mencionado, a incorporação da Teoria Queer entre nós se iniciou pela educação, portanto em uma área historicamente afeita à reflexão sobre a formação dos sujeitos. Desde Paulo Freire sabemos que a educação pode servir a intuitos emancipadores, os quais, como prova a obra de Guacira Lopes Louro também, podem abranger a esfera da sexualidade e do gênero visando à desconstrução de desigualdades e injustiças. A atenção crítica à educação como dispositivo normalizador, mas também como promissora área de resistência à normalização, faz pensar em outras áreas historicamente disciplinadoras, como a de saúde. Encontramos aí a atenção comum às práticas sociais normalizadoras como o que Teresa de Lauretis denominou de tecnologias de gênero.

Não é mero acaso que, no Brasil, onde historicamente a população tendeu a ser vista como caso de polícia e objeto de punição, com o retorno à democracia a partir de 1985, foram justamente a saúde e a educação os primeiros serviços conquistados pelo povo brasileiro. Em outras palavras, ainda que  historicamente – nos países centrais – essas áreas tenham criado o que Michel Foucault denominou de dispositivo disciplinar, aqui, entre nós, eles tornaram-se uma conquista democrática e se disseminaram de forma diversa. Nosso alcance retardatário à saúde se deu por meio de um sistema universal que, apesar de não ser perfeito, é um dos mais justos do mundo assim como a expansão do ensino se deu mais próxima das demandas “de baixo” do que dos intuitos normalizadores “do alto”.

Talvez isso ajude a compreender porque boa parte dos estudos queer, entre nós brasileiros/as, tenha focado em demandas de reconhecimento e direitos envolvendo a educação e a saúde. Estudos que atualmente não encerram toda a abrangência das investigações queer nacionais que se estendem também às pesquisas sobre mídia, sobre o movimento LGBT, literatura,cinema, áreas psi. Em comum, é possível reconhecer uma perspectiva crítica à normalização sexual e de gênero, a qual se intersecta com outras diferenças de forma que o queer dos trópicos tem se transformado em um saber crítico às chaves analíticas que ignoram o papel da hegemonia heterossexual na criação de desigualdades e injustiças.

Richard Miskolci
é doutor em sociologia. Autor, entre outros, de O desejo da nação: masculinidade e branquitude no Brasil de fins do XIX (Annablume) e Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças (Autêntica).

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2014/09/critica-a-hegemonia-heterossexual/беспроводной домофонОХРАНА ДОМАстоимость ммсDunlop D221when is the great migrationтурагентства харьковаТашкент монтаж паркета штучноготорговая марка знакDurangotravel to kilimanjaro

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