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Entrevista Patricia Porchat

 

É com grande orgulho que iniciamos a nossa nova área do site dedicada a entrevistas.  Pessoas, profissionais do ramo ou não, que consideramos interessantes e que possam contribuir para o conhecimento do tema.

A primeira entrevistada é a Psicóloga e Psicanalista Patricia Porchat, que acaba de lançar seu livro ” Psicanálise e Transexualismo: desconstruindo gêneros e patologias com Judith Butler”.

 

1. Sabendo da sua ampla experiência como psicanalista, como iniciou seu trabalho com transgêneros?

Eu trabalhava no consultório e coincidiu de ter muitos pacientes gays numa determinada época. Me interessei em pesquisar como a teoria psicanalítica falava da homossexualidade e percebi que era necessário estabelecer diálogos com outras áreas: literatura, antropologia, sociologia e história. Cheguei ao conceito de gênero e descobri que ele era um conceito fundamental para interrrogar a psicanálise quanto à idéia de constituição do sujeito, de patologia, além de trazer questões políticas. Judith Butler foi uma autora que atravessou o meu caminho nessa ocasião e com ela a idéia de que os transgêneros poderiam ser o paradigma fundamental para pensar as questões de gênero. Aí entrei em contato com alguns grupos, ongs, e apareceram os transgêneros no consultório.

 2. Porque do seu interesse por esse tema tão específico?

O interesse é pelas questões de gênero e não dá para pensar gênero sem os transgêneros. Esse tema está na base de algumas questões fundamentais. Posso citar a da relação entre homens e mulheres, que envolve violência, dominação, mas também desejo e erotismo. A seguir temos justamente a questão do desejo, do afeto e do erotismo pensado na polaridade entre heterossexualdade e homossexualidade. Daí derivamos uma questão política e de ordem social que vem sendo revelada pela idéia de uma matriz heteronormativa ou de uma heteronormatividade compulsória, que vem sendo questionada. Temos a questão dos direitos humanos, o direito de ser quem quisermos e usufruirmos de igual para igual daquilo que a sociedade nos oferece, independentemente de nossa anatomia, identidade, desejo ou prática sexual. Por último, como psicóloga e psicanalista, me interessa a questão do desenvolvimento e da constituição do sujeito: o que é gênero e como se forma gênero.

 3. Como você define a transgeneridade?

Classicamente  admitimos  dois  gêneros,  masculino  e  feminino  e  transgênero é alguém  que  vai  de  um  a  outro,  ou  seja,  vai  do  gênero  que  lhe  foi  atribuído  ao nascer,  em  função  do  sexo  anatômico,  ao  gênero  oposto.  Isso  ocorre  porque  há uma identificação com o gênero oposto ao que lhe foi atribuído. Essa identificação é  da  ordem  de  um  sentimento  de  pertencimento  a  esse  gênero  oposto.  As  causas são  investigadas  e  há  algumas  teorias  a  esse  respeito.  Mas  independentemente dessas causas, há um fato: o do desconforto com o gênero atribuído ao nascimento e tudo o que ele representa. No entanto, essa se tornou também uma forma clássica de  se  pensar  o transgênero. Hoje  há  pessoas  que,  estando  ou  não  organizadas  em movimento  sociais,  reivindicam  o  direito  de  não  serem  homens  ou mulheres, mas simplesmente “trans”. Ou então homens trans ou mulheres trans. Isso é interessante, pois  admite  um  certo  grau  de  criatividade  em  relação  às  normas  estabelecidas. Para  essas  pessoas,  o  corpo  não  precisa  estar  de  acordo  com,  digamos  assim,  as “convenções”  de  gênero.  Tampouco  a  identidade  necessita  ser  coerente  com  os “padrões”  de  gênero  esperados.  Eu  diria  que  a  transgeneridade,  antes  de  tudo, é  uma  experiência  singular  em  relação  ao  corpo  e  ao  gênero.  Ela  pode  levar  as pessoas  a  lugares  distintos.  Normalmente  envolve  sofrimento  e  criatividade. Mas nem sempre os dois estão presentes.

4. O que é teoria queer?

Na acepção mais conhecida do termo queer encontramos referências a um campo indefinido e sem fronteiras de gêneros e sexualidades, aí podendo ser incluídas práticas corporais não convencionais e não- normativas. Em seu artigo Queer and Now, de 1993, Sedgwick aponta os diversos usos do termo queer e seu vasto alcance. Queer pode ser usado para raça, etnia, nacionalidades pós-colonialistas e para vítimas de variadas formas de exclusão e de violência. O termo queer é usado para investigar, analisar, questionar e intervir sobre as normas e as margens que elas produzem. Mas encontramos dois outros usos do termo queer que, para mim, podem ser aproximados da psicanálise. Queer pode se referir a lacunas, lapsos, excessos e dissonâncias, funcionando como uma matriz aberta a possibilidades na constituição de gênero e sexualidade. O segundo uso aparece quando Sedgwick diz que há alguns sentidos em que queer só pode ser usado na primeira pessoa. E, acrescenta, que talvez o que identifica o uso de queer como um uso verdadeiro é o impulso para usá-lo na primeira pessoa. Afinal, se queer é dissonância, lapso ou excesso, pode-se dizer que não existe identidade comum a dois sujeitos. Queer só poderia se referir a cada um, em sua particularidade.

5. Como você entende a construção subjetiva da identidade de gênero?

Freud tem clara consciência da dificuldade em se definir o próprio conteúdo dos gêneros, digamos assim, as noções de masculino e feminino. Podemos ver isso numa nota de 1915 acrescida aos Três Ensaios como em outra nota de rodapé, dessa vez em 1930, em O Mal-Estar na Civilização. Em 1915, ele diz: ” Todo indivíduo, ao contrário, revela uma mistura dos traços de caráter pertencentes a seu próprio sexo e ao sexo oposto e mostra uma combinação de atividade e passividade, concordem ou não estes últimos traços de caráter com seus traços biológicos”. Já em 1930, Freud parte novamente da teoria da bissexualidade para dizer que: ” se considerarmos verdadeiro o fato de que todo indivíduo busca satisfazer tanto desejos masculinos quanto femininos em sua vida sexual, ficamos preparados para a possibilidade de que esses dois conjuntos de exigências não sejam satisfeitos pelo mesmo objeto e que interfiram um com o outro, a menos que possam ser mantidos separados e cada impulso orientado para um canal específico que lhe seja apropriado”. Na construção da teoria psicanalítica, entre esses dois textos temos a apresentação do Complexo de Édipo. Freud, partindo da perversão polimorfa das crianças, utilizará o complexo de Édipo para explicar como a criança se torna um homem ou uma mulher pela via da identificação. A fase edípica corrigiria a dispersão das pulsões através de identificações que as unificam e as direcionam. Acho que fica claro que a incoerência e a descontinuidade de gênero, usando um vocabulário butleriano, não sucumbiu ao Édipo freudiano, como o próprio Freud de certa forma admitiu em 1930! Ou seja, o complexo de Édipo não é suficiente para conter, dirigir ou formar uma identidade de gênero estável, coerente, em concordância com a anatomia. Gênero sofre determinações de várias ordens (biológica talvez, social e histórica, com certeza). Mas gênero é também criatividade. E essa criatividade é da ordem do psíquico, consciente e inconsciente. Em Stoller, que tentou pensar o gênero a partir de transexuais, assim como em outros autores, busca-se compreender a identificação num momento bem anterior à fase edípica. O sentido do sexo da pessoa, sua identidade de gênero nuclear, não implica em um papel ou em relações objetais. A masculinidade ou feminilidade primordiais, o sentido de ser homem ou mulher, estará estabelecido por volta dos dois ou três anos. Essa identidade de gênero nuclear resultará de vários fatores: uma “força” biológica que se origina na vida fetal; a designação do sexo no nascimento pelo médico e pelos pais; a influência incessante das atitudes dos pais, especialmente das mães, sobre o sexo daquele bebê e a interpretação destas percepções por parte do bebê, pela sua capacidade crescente de fantasiar; efeitos pós-natais precoces causados por padrões habituais de manejo do bebê – condicionamento, “imprinting” ou outras formas de aprendizagem que modificam permanentemente o cérebro do bebê e o comportamento resultante; o desenvolvimento do ego corporal: as qualidades e quantidades de sensações, especialmente dos genitais, que definem o físico e ajudam a definir as dimensões psíquicas do sexo da pessoa. Analisando os itens de Stoller, vemos que algo que iria numa direção pode encontrar fatores que levam a uma outra direção. Qual o saldo? Ninguém pode dizer a priori. Podemos sim tantar reconstruir num processo analítico a construção de uma determinada identidde de gênero. Mas toda reconstrução é da ordem de uma ficção de si.

6. Como a clinica psicológica e psicanalítica pode, na sua opinião, contribuir para a população trans?

Escutando o sofrimento quando houver. Buscando discriminar aquilo que pode ser da ordem de uma submissão ao desejo do Outro (família, médico, advogado, sociedade em geral) e que leva o sujeito a determinados atos por estar alienado e longe de seu próprio desejo. Nesse sentido, a escuta do psicanalista pode ajudar o sujeito a encontrar a sua própria singularidade.

7. Qual as maiores dificuldades enfrentadas por um transgênero hoje no Brasil?

Com  certeza  a  discriminação,  preconceito  e  violência.  Mas  também  o desconhecimento  da  população  em  geral  acerca  dos  sujeitos  trans.  E  eu acrescentaria,  o desconhecimento,  por  parte  de  muitos  trans,  da  possibilidde  de lutar  por  seus  direitos e  por  uma certa autonomia em  relação aos “mandamentos” em  relação  à  transexualidade.  Quero  dizer  com  isso,  e  isso  vale  para  qualquer pessoa  pouco informada  acerca  de  sua  condição  e  de  suas  possibilidades,  que  há diferentes   caminhos  possíveis  para  a  sua identidade,  sua  singularidade,  seu  bem-estar e seu mal-estar. Acho que  descobrir “o que é ser trans para mim?” pode ser algo realizado em parceria com um psicólogo, psicanalista, com a participação em movimentos sociais, mas também de outras maneiras.

8. Quais as suas principais críticas sobre o precesso transexualizador realizado no SUS hoje e o que você sugere como possíveis melhoras para esse serviço?

Em primeiro lugar, há que se investir continuamente na formação dos profissionais que atuam nessas áreas. Nem todo mundo que trabalha com a população trans fez essa escolha e. muitas vezes, tem pouca habilidade e cuidado no trato com as pessoas trans. Há relatos de maus-tratos e desconforto nos atendimentos. A descentralização seria importante também. Mais hospitais que façam as cirurgias necessárias, mais endócrinos disponíveis, mais psiquiatras, enfim, uma ampliação dos serviços e que não estejam tão concentrados nas regiões sul e sudeste do país.Os estudos sobre a população trans tem envolvido diversas áreas e elas tem perspectivas diferentes. Seria fundamental que pudessem conversar. Medicina, psicologia, psicanálise, antropologia, história, literatura e direito. Seia incrível poder ver uma verdadeira e produtiva conversa entre esses campos, com a presença necessária de pessoas trans (afinal, são a parte interessada). Não falo de um congresso rápido, com inúmeras mesas em que pessoas fazem sua comunicação e mal conseguem ter tempo para escutar a dos outros e debater com profundidade. Falo de um encontro ou de um grupo de trabalho em que todos se respeitem.

  9 .Quais autores você sugere para quem quer se aprofundar nos estudos de gênero?

Gayle Rubin, Donna Haraway, Teresa de Lauretis, Mary Stathern. São pesquisadoras da área da antropologia e da filosofia, como a própria Judith Butler, que estabelecem diálogos com a psicanálise. Mas também podemos pensar nas psicanalistas como Juliet Mitchell, Jessica Benjamin, Silvia Bleichmar, Monique Schneider, ou ainda, em Ken Corbett e Thamy Ayouch, que fazem importantes contribuições para essa discussão.

 

 

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