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Laerte em trânsito – Como vive, o que pensa e com quem anda o cartunista que decidiu ser mulher em caráter experimental

por FERNANDO DE BARROS E SILVA

 

Laerte se levantou da mesa e atravessou o longo salão do restaurante até o banheiro. Entrou no masculino. No caminho de volta, foi abordado por um grupo de homens e mulheres, reunidos num happy hour animado. Haviam reconhecido o cartunista e queriam tirar fotos com ele. Em meio a abraços, poses e cliques dos celulares, um dos rapazes arriscou um elogio: “Genial isso da sua vestimenta.” “Não é só a vestimenta, você sabe disso, né?”, respondeu Laerte, provocando sorrisos e deixando no ar uma ponta de interrogação. No percurso, o caixa do estabelecimento também o saudou em voz alta: “Te vi na televisão!”
“Eu me transformei nisso”, disse Laerte, de volta à mesa, no Senzala, conhecido bar e restaurante da praça Panamericana, na Zona Oeste de São Paulo, frequentado por professores e alunos da Universidade de São Paulo.
“É meio perturbador, uma sensação estranha”, comentou, tentando descrever como assimila o fato de ter se tornado uma celebridade. “Antes eu era conhecida como autora de quadrinhos”, falou, usando a regência feminina. “Mas era algo localizado. Agora virei também uma figura dos faits divers. Ah, é o cara que se veste de mulher! É um cartunista. Mas é gay? Não, não é bem assim. Não é? Não sei”, ele imitava vozes e ria do próprio teatro.
Fazia calor intenso naquela tarde paulistana de dezembro. Laerte vestia uma minissaia jeans (“Não muito curta, tenho 61 anos”) e uma blusa branca de botões, estampada com flores miudinhas. Usava maquiagem discreta no rosto, um colar de pedras coloridas e cinco ou seis pulseiras. Tinha as unhas das mãos pintadas de vinho e as dos pés, de vermelho cintilante. Calçava sandálias marrons de salto baixo.
Logo que chegou, tirou da bolsa um leque preto. Pediu ao garçom um chope escuro e uma porção de bolinhos de bacalhau. “Ainda gosto de brincar de tia, mas estou fazendo voos mais amplos”, disse, abanando-se com movimentos curtos e ligeiros, quando lhe perguntei sobre o tipo de roupas femininas que gostava de usar.
“As pessoas costumam ser muito receptivas comigo”, contou. “Mas o que tem sido fácil para mim é difícil para a imensa maioria das travestis. Isso me deixa com certo desconforto, me dá a sensação de que estou anodinizando a atitude travesti”, disse, empregando um de seus inúmeros neologismos. “Não gostaria de transformar essa atitude – que é de desafio à regra, de transgressão – em algo palatável. O papel de ursinho carinhoso me incomoda.”
Não é preciso muito tempo de conversa para ver Laerte desempenhar o papel de “advogada da diaba”, expressão dele. É comum que estique uma argumentação até o limite para, logo em seguida, dar meia-volta e inverter o sentido do pensamento, levando-o ao outro extremo, como  alguém que submete de maneira quase instantânea suas ideias à contraprova. Sua cabeça funciona muitas vezes como um bumerangue – vai numa direção, volta noutra.
Ida: “De certa forma, as travestis que se sacrificaram e se sacrificam estão me permitindo uma espécie de existência num patamar seguro. É uma leitura possível.” Volta: “Mas, também, isso é um pouco injusto comigo. Em algum grau, também estou transformando a travestilidade numa coisa possível e viável. Não tenho muito como medir isso agora.”

primeira estação da lenta viagem que Laerte Coutinho, um dos mais importantes cartunistas do país, fez para assumir sua persona feminina é conhecida pela sigla BCC. O Brazilian Crossdresser Club surgiu em 1997, inspirado num similar norte-americano. Começou como uma espécie de fórum, contando com recursos ainda embrionários da internet, em que homens que gostavam de se vestir de mulher compartilhavam experiências. Em pouco tempo, se revelou um poderoso catalisador de algo que estava disperso e era invisível. “Antes do BCC, travesti e transexual de classe média era como cabeça de bacalhau: todo mundo sabe que existe, mas ninguém nunca viu”, resumiu Letícia Lanz, uma trans de Curitiba que conheceu Laerte no clube e se tornou uma de suas grandes amigas.
Formada em economia e pós-graduada em administração e psicologia social, Letícia é um travesti de 60 anos. Tem os cabelos brancos e cacheados, meio revoltos, o que faz lembrar uma versão feminina de Erasmo Carlos. Usa um piercing entre o queixo e o lábio inferior e ostenta seios discretos.
“O Laerte chegou ao BCC como chega a maioria. Completamente perdido”, lembrou Letícia. E chegou usando a identidade feminina que adotou para si, conforme exigiam as regras do clube: chamava-se Sônia Cateruni.
Nem Letícia nem Laerte pertencem mais aos quadros do BCC. A primeira rompeu com o clube depois de sete anos, justamente no momento em que Sônia estava ingressando. “O BCC funciona como porta de entrada, mas não tem proposta nenhuma. É um clube de festas, no qual as pessoas mais  fogem do problema do que o encaram.” As palavras de Letícia para definir o Brazilian Crossdresser Club são duras: “Um ambiente extremamente misógino, extremamente homofóbico e extremamente transfóbico.”
Se há uma ideologia no BCC, diz Laerte, “é a ideologia do armário”. Algo como “a construção da arte de se apresentar femininamente num contexto específico e fechado e, ao mesmo tempo, manter no cotidiano a identidade masculina, pela qual se é publicamente conhecido. É uma puta confusão. E, em resumo, é uma fuga”.
Existe uma questão de status social envolvida na identidade do clube: “O crossdresser é um travesti. Só que de classe média. Se lhe aplicarem a pecha de travesti, ele morre. Eu? Sou fina. Sou educada, não faço barraco na rua!”, disse Laerte, imitando uma personagem de voz afetadinha.
O BCC não tem sede, não existe materialmente. Na maior parte do tempo, funciona como um clube virtual. Promove também uma festa anual e encontros esporádicos, em sítios ou casas alugadas, que podem durar até um fim de semana inteiro.
Entre a condição semiclandestina experimentada por Laerte no BCC e a sua superexposição atual há uma distância que também pode ser medida nos termos da politização progressiva de sua atitude. No mês passado, por exemplo, na onda dos protestos contra o deputado-pastor Marco Feliciano, circulou freneticamente pelas redes sociais uma foto do cartunista com o arco-íris ao fundo e os dizeres “Laerte para presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara”. A boutade é sintomática do lugar que ele passou a ocupar.

e volta ao Senzala, entre um bolinho e um gole de chope, Laerte contou que havia participado na véspera, pela primeira vez, de um encontro no Projeto Purpurina, grupo que auxilia pais de homossexuais a conviver com a opção de seus filhos. “Um menino de 17 anos veio falar comigo. Disse que eu fui importantíssimo para o pas-so que ele deu. Ele estava linda. Uma menina linda, uma maquiagem incrível. Mas ele se apresenta como Henrique. Não é travesti old school, que precisa de nome, de carteirinha. É uma nova proposta de transgenereidade.”
Laerte também deu o seu depoimento no Purpurina (com acesso vetado, para preservar a intimidade das famílias), mas disse que estava lá para acompanhar a amiga Márcia Rocha. Formada em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, dona de uma rede de estacionamentos e de uma incorporadora imobiliária, Márcia também é travesti. “Ela foi  com a filha, as duas falaram, se emocionaram, choraram juntas”, contou Laerte.
Márcia se separou da mulher quando a filha, hoje com 18 anos, tinha 9 meses. A jovem e o pai travesti moram juntos em Alphaville, condomínio luxuoso na Grande São Paulo. Márcia é uma morena de 1,80 metro de altura, cabelos negros lisos e compridos, cuja presença não passa despercebida. Aos 48 anos, é dona de um corpanzil e tem seios bem evidentes. Começou a tomar hormônios femininos de forma regular há oito anos e, em 2011, decidiu colocar uma prótese de silicone: “Sou muito grande, os hormônios não davam conta sozinhos.”
Numa tarde de dezembro, Márcia vestia camiseta regata preta, minissaia jeans curtinha e sandálias. Fumava em pé, ao lado de uma mesa na calçada, quando a encontrei na Mercearia São Pedro, endereço da boemia paulistana, na Vila Madalena, frequentado por escritores, jornalistas, gente de teatro.
Com a fala desimpedida, ela contou que, apesar de sua transformação – e apesar de ser rica (“Dinheiro, para mim, não é problema”) –, nunca teve intenção de fazer cirurgia para trocar de sexo. “Eu adoro o meu peru. Amo ele de paixão. Se eu tivesse que escolher entre tirar o pinto e tirar o peito, eu tirava o peito, sem piscar.” Acrescentou que sente atração por homens e por mulheres, mas costuma ter mais relacionamentos com o sexo feminino: “As lés-bicas me olham com desejo. Uma das coisas que eu mais gosto é me sentir desejada, me sentir mulher, perceber que estou agradando.”
A certa altura da conversa, Márcia fez questão de esclarecer um ponto de maneira didática: não confunda identidade de gênero (masculino e feminino) com orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, assexuado). “São coisas distintas”, ela explicou, citando-se como exemplo. Não há relação necessária entre o corpo biológico de alguém e seu gênero. Não há relação necessária entre o gênero da pessoa e seu desejo sexual. Falava como se estivesse revelando a mim a Primeira Emenda da Constituição dos transgêneros.
No início de novembro, quase um mês antes de participarem do Projeto Purpurina, Laerte e Márcia viajaram juntos para Curitiba. Foram no carro da empresária para o congresso de “Expressões Transgêneras”. Era o primeiro evento público promovido pela Abrat, a Associação Brasileira deTransgêner@s – assim mesmo, com @. A ONG foi criada no final de 2011 e desde o início é dirigida por Laerte e Márcia, junto com mais duas trans da capital paranaense, Letícia e Maite Schneider. As quatro haviam se conhecido no BCC.
Como Laerte, só tardiamente Letícia começou a transformar seu corpo e a maneira de se vestir – por volta do ano 2000, depois dos 45 anos. “Quando saí do armário perdi todos os meus clientes”, disse ela, que atuava como consultora de empresas. “Agora alguns estão voltando, devagarinho.”
Letícia tem voz mansa e fala de forma pausada, com sotaque levemente acaipirado. A “descompressão”, como ela gosta de dizer, não alterou sua orientação sexual: “Eu sempre fui uma pessoa hétero. Hoje eu diria que sou homo. Tenho atração por mulheres.” Continua casada com a mãe de seus três filhos, todos já adultos. “Não aceito a imposição de que a pessoa, ao assumir sua condição trans, precisa jogar casamento, família, profissão, tudo pelos ares, mandar tudo para a puta que o pariu. Não aceito. Você nem imagina o sofrimento dessa luta.”
Maite é a caçula da ONG. Tem 40 anos e trabalha como depiladora e atriz de teatro. De todas as fundadoras da Abrat, é a única transexual – construiu uma vagina no lugar do pênis, num processo cheio de lances dramáticos, que levou décadas para ser consumado e até hoje lhe causa transtornos.
Sentindo-se desde a infância confinada num corpo pelo qual tinha aversão, aos 16 anos ela tentou o suicídio. Quando tinha 30 anos, depois de tomar hormônios por conta própria anos a fio, comprou anestesia de dentista, bisturi, linha de sutura e, num gesto de desespero, arriscou fazer sozinha, em casa, uma orquiectomia (a remoção cirúrgica dos testículos). Quase morreu, mas foi socorrida a tempo por um amigo que a levou ao hospital.
Recuperada, descobriu uma clínica clandestina no Paraguai, onde conseguiu fazer a retirada dos testículos. Voltou para casa de ônibus com um deles embrulhado num plástico, dentro da bolsa. “Viajei doze horas esmagando a bolinha. Quando cheguei, joguei fora na rodoviária de Curitiba. Para ter certeza de que não iriam reimplantar.”
Só meses mais tarde ela conseguiria, enfim, passar pela cirurgia de readequação sexual dentro dos trâmites legais. Mas teve outras complicações e, desde então, já foi submetida a catorze intervenções cirúrgicas corretivas.
Olhos azuis, cabelos pretos, pele clara, Maite chama a atenção pela  beleza. Durante nosso almoço, num shopping de Curitiba, ela falava compulsivamente, com sotaque acentuado e voz cantada, emendando uma história na outra, sempre muito bem-humorada. Havia um descompasso gritante entre o enredo que narrava e a alegria incontida e contagiante de sua figura.
Maite enxerga nas três sócias uma coragem que não vê em si. “Elas puseram tudo o que haviam construído em risco quando decidiram se assumir: a Laerte já tinha uma carreira brilhante como artista, um nome consagrado; a Letícia era uma profissional muito bem-sucedida; a Márcia é empresária – e todas têm filhos. Eu não. Não tinha nada. Ou eu me transformava numa mulher ou me matava. De certa forma era uma decisão bem mais simples”, disse.
Foi mais ou menos na ocasião em que Laerte ingressou no BCC que Márcia Rocha o apresentou a Dudda Nandez: “Você vai lá que ela te monta inteirinha. Tem peruca, roupa, sapato, maquiagem, esmalte, tudo.”
Dudda Nandez é o nome artístico de uma jovem que se especializou em produzir homens com trajes femininos. Quando conheceu Laerte, ela alugava um espaço em Santa Cecília, região central de São Paulo. “Nossa, lembro como se fosse hoje o dia em que conheci o Lá. Desde o começo eu só o trato como Sônia” – o nome que Laerte usava no BCC. “Mas ele não veio de primeira querendo se produzir. Veio mais para um aconselhamento psicológico. Estava todo perdido.”
Uma troca de e-mails entre Laerte e Dudda deixou registrado esse momento. No dia 12 de fevereiro de 2009, ele escreveu para ela:
Não preciso repetir como foi positiva a conversa de ontem.
Gostaria de lembrar a expressão que você usou, pra me dizer: “Para  de…?” – não lembro se era “pensar”, “encanar”, era um verbo bom, que eu esqueci.
Você lembra?
Saí dali e comprei uma calcinha muito gostosa.
Quero saber se você se incomoda que eu cite você e o seu estúdio no meu blog.
Beijo!
Sônia
A resposta de Dudda veio no mesmo dia:
Oi, meu amor… Fico feliz que tenha gostado… Quanto ao que eu te disse, é para parar de questionar tanto as coisas ao seu redor e ir para a prática… Vá viver, vá curtir, vá namorar, ser feliz… é isso que vale!!! Que bom que comprou a calcinha… logo logo são roupitchas e vestidos… Beijos, flor, e pode citar sim…
Na segunda vez, Laerte marcou uma depilação. “Ele chegou daquele jeito dele, amoroso, sossegado, desligadão. Ficou todo contente, se sentindo bem feminina quando se viu sem os pelos”, disse Dudda. Na terceira visita, marcou a produção: “Resolveu se montar. Ele gosta mais de roupas de senhora. Nada muito ousado, que tenha decote, nada justo, que dê conotação sexual.”
O atual estúdio de Dudda fica num sobrado simples de uma rua pouco  movimentada da Penha, na Zona Leste de São Paulo. O andar térreo funciona como um salão de beleza convencional – maquiagem para mulheres, depilação e unhas para ambos os sexos. Não há na fachada da casa nenhuma indicação de que ali se pratica o crossdressing. Os clientes costumam agendar horários alternativos, em que possam ser produzidos de forma discreta, sem mulheres no local.
Dudda é uma morena de 27 anos, cabelos longos e cacheados, bastante volumosos, olhos amendoados e um sorriso encabulado, que deixa à mostra dentes irregulares. Tem uma filha de 7 anos e diz ser “bissexual desde os 15”. Começou a travestir homens por acaso, depois que passou a frequentar ambientes GLS, no final da adolescência. Uma das “meninas” produzidas por ela divulgou fotos na internet e a imagem se espalhou. Até então gratuito e visto como uma diversão (o que ela diz ser até hoje), o trabalho de Dudda foi aos poucos se profissionalizando.
Hoje a produção completa em seu estúdio custa entre 200 reais (depilação, maquiagem, roupa) e 300 reais (com direito a até quatro roupas e sessão de fotos para guardar de lembrança).
Ela também promove encontros entre os crossdressers. Costumam  acontecer uma vez por mês. “As meninas se reúnem, mas não tem nada de pegação, é bem familiar. Elas se produzem, a gente come, bebe, conversa, tira fotos.” Na média, participam de dez a quinze pessoas por encontro, mas já chegaram a ser trinta numa única tarde de sábado.
No final de abril de 2009, Laerte escreveu um e-mail para Dudda sobre o primeiro cross day de que participou:
Dudda, o encontro foi uma delícia. Todas saíram com essa opinião – no fórum seu estúdio está sendo comentado de cima em baixo (agora que tem dois andares).
Fiquei com alguns itens seus que preciso devolver: corset, brincos e pulseiras.
Além de um coração cheio de alegria, que não posso devolver, mas que espero retribuir!
De prático, quero começar o curso de automaquiagem.
Beijo!
Sônia
No dia 15 de maio, ele narra em outro e-mail os resultados desanimadores da primeira tentativa de automaquiagem:
Em resumo, acho que foi um desastre.
Primeiro, mesmo fazendo a barba com fé e devoção, os pelos aparecem no resultado final, impávidos.
Talvez seja a base.
Essa base líquida, de vidrinho, foi um problema: apanhei dela desde a  tampinha, que não sei se abri certo ou se quebrei sem saber.
Ela tem um pincel interno, que está junto com a tampa e sai cheio de base líquida grudada.
Usei assim: passando neste líquido o pincel que veio naquele estojinho que a gente comprou na Sumirê e aplicando no rosto.
Segui os passos que você indicou. Acho que neste ponto fiz tudo certo.
Mas borrei a pálpebra com o lápis, foi muito difícil.
E o batom que eu usei antes do corretivo, na pele, não serve pra lábio… fica muito esquisito, um rosinha meio tonto.
E não passei blush – acho que a gente esqueceu de comprar, não encontrei por aqui.
Bom, alguns problemas estruturais não têm nada a ver com você: Preciso de espelho maior, luz melhor e lente de contato. Está um saco maquiar e botar óculos toda hora.
Beijo!
Sônia
A sede da Associação Brasileira de Transgêner@s, a entidade criada por Laerte e suas três amigas, fica no bairro Mercês, próximo ao Centro de Curitiba, numa rua tranquila, de poucos prédios, onde se misturam residências e pequenos estabelecimentos comerciais. Não há, na casa de fachada amarela e portão de ferro, nenhum registro de que ali funciona uma ONG.
Eram 68 os inscritos. Naquela manhã ensolarada de sábado, porém, apenas 41 pessoas tinham aparecido no congresso transgênero. Na plateia havia estudantes de ciências sociais, história, psicologia, pedagogia e medicina social, professores das áreas de humanas, gente formada em direito, enfermagem e até em turismo. Tirando as anfitriãs, só uma advogada, vinda de Brasília, era travesti.
Como estrela do evento, Laerte faria a palestra de encerramento, na parte da tarde. Antes disso, no intervalo da programação, saiu com um grupo para almoçar num restaurante a poucas quadras dali.
“Os senhores querem beber o quê?”
A pergunta do garçom se dirigia à mesa, indistintamente, onde havia quatro pessoas: uma professora da Uni-versidade Federal do Paraná, Laerte, Márcia Rocha e eu.
Minutos depois, ele insistiu, de cara amarrada:
“Já escolheram, senhores?”
Sua atitude denotava menos a intenção deliberada de agredir que uma visível incapacidade de lidar com a situação. Laerte até então parecia compenetrado na conversa, alheio às palavras do jovem negro vestido de terno branco e gravata-borboleta. Virou-se de repente na direção do rapaz e perguntou, sério:
“Como é a panqueca?”
“É bem servida, são três rolos…”
“E qual é o tamanho do rolo?”, devolveu, fazendo logo o gesto típico com as mãos espalmadas no ar.
Antes que o garçom conseguisse rea-gir, formou um círculo com os dedos, e emendou, abrindo um sorriso:
“E o diâmetro do rolo, como é?”
Foi-se a circunspecção. O garçom explodiu numa gargalhada.
Durante o almoço Laerte se levantou para ir ao banheiro duas vezes. Na primeira expedição, usou o feminino. Na segunda, anunciou que iria “conhecer o banheiro masculino, para comparar”. Voltou com questões: Por que o banheiro masculino é invariavelmente mais sujo que o feminino?Será apenas uma decorrência da anatomia de cada sexo? Por que o fraldário, ali como em todos os lugares, fica dentro do banheiro feminino? Por que é tão natural a ideia de que são as mulheres que devem trocar as crianças?
“Banheiro público também é construção de gênero. Nessa minha vida com dupla cidadania, eles se tornaram um objeto antropológico”, ele explicou.
Transformaram-se também em dor de cabeça. No início de 2012, em São Paulo, uma mulher acompanhada da filha, uma criança de 10 anos, sentiu-se ultrajada ao reconhecer Laerte no banheiro feminino de uma pizzaria. Cobrado, o proprietário deu razão à cliente. Pediu que o cartunista usasse o banheiro adequado – o dos homens. Laerte também protestou. Sentia-se no direito de entrar no banheiro que bem entendesse. O episódio vazou para a internet e a polêmica chegou rapidamente à Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania do Estado. No fim, o dono do restaurante se desculpou e as coisas ficaram por isso mesmo.
“Foi desagradável para todo mundo”, ele comentou. “Não gosto da ideia de fazer desafio, de ficar testando. Em determinados lugares, procuro ir ao banheiro masculino, para evitar encrencas. Não quero fazer do instante de mijar um momento de tensão.”
Bem antes de se tornar a figura do universo transgênero de maior visibilidade no país, Laerte esteve na linha de frente de uma geração que mudou a cara dos quadrinhos, em meadosdos anos 80. Na revista Chiclete com Banana e nas páginas da Folha de S.Paulo, ele foi responsável, ao lado de Angeli e Glauco (assassinado em 2010),  pela criação de um humor novo e escrachado, de traço sujo e vocação anarquizante, cuja graça e força crítica estavam ancoradas no desajuste – social e comportamental – dos personagens que colocava em cena, e não em uma pauta política supostamente comum a todos.
Rê Bordosa (Angeli), Geraldão (Glauco) e os Piratas do Tietê (Laerte) foram, entre tantas coisas, crias e expressões da ressaca democrática que se seguiu à barra da ditadura. Estavam enraizados na cena underground paulistana e participaram de um momento da cultura que elegeu a cidade subterrânea – imunda e inviável – como palco e problema. Foi também a época de filmes como Cidade Oculta e da música deArrigo Barnabé: Clara Crocodilo e os Tubarões Voadores – desenhados por Luiz Gê, da mesma turma de quadrinistas – eram monstros que viviam e se divertiam aterrorizando a metrópole, como os bucaneiros perversos e depravados criados por Laerte.
O banner do congresso da Abrat trazia uma tirinha feita especialmente para o evento pelo cartunista. Na primeira cena, um homem ao volante põe o cotovelo para fora da janela e berra na direção de um travesti: “Existe macho e fêmea. E tá acabado!” No quadro seguinte, o travesti responde: “Isso mesmo. Eu sou macho e fêmea. E você tá acabado!”
O travesti era Muriel, personagem famosa que surgiu em 2004 nas páginas da Folha de S.Paulo, quandoHugo,até então a figura central da história, decidiu se travestir. Já o motorista-ogro era inspirado em outro colaborador do  jornal: “Essa fala é real. Foi mais uma das inúmeras contribuições do soi-disant filósofo Luiz Felipe Pondé”, explicou Laerte, ao iniciar sua apresentação.
Desde que foi inventado, na década de 90, Hugo se comportava como uma espécie de alter ego do cartunista. Anos depois, quando se transformou em Muriel, a personagem ganhou nova dimensão: passou a ser tanto a elaboração artística como um documento velado do terremoto vivido ainda às escondidas por seu criador.
O tema central da palestra de Laerte naquela tarde em Curitiba tinha a ver com isso tudo. Por quarenta minutos, ele tratou das relações complexas, tensas e frequentemente infelizes entre o trabalho do cartunista e a militância de gênero; ou entre as demandas do humor, de um lado, e as da política, de outro.
Trajando um vestido de brim cor de champanhe, Laerte caminhava com o microfone na mão, absorto em si, sem fixar os olhos na plateia. Começou dizendo que o discurso humorístico tem uma particularidade: “É quase ‘inagarrável’, só existe como a areia que escorre numa ampulheta: se você tentar pegá-lo, ele se desfaz.” E continuou: “Daí o risco de usar o humor como ferramenta ideológica. Toda vez em que procurei fazer isso, seja quando militei no PCB, nos anos 70, seja agora, na minha militância das questões transgêneras, sempre tive problema. É um momento em que a linguagem do humor perde o rebolado.”
Mas o fato – continuou ele, compenetrado – é que também existe hoje, muito disseminada, certa ideia de que o humor tem no seu DNA uma espécie de “neutralidade”, ou de “imunidade”, que o poria acima, ou à parte, das críticas ou das discussões políticas que é capaz de suscitar. Antes que alguém pudesse chiar, ele tratou logo de esclarecer que a censura nunca é uma solução. Mas isso não deve impedir que se enfrente um paradoxo: “As pessoas que reivindicam liberdade de expressão para falar certas coisas sob a proteção do humor são, em geral, altamente contrárias a determinadas liberdades de expressão.”
A conversa, então, foi parar no bobo da corte – essa figura a quem  historicamente coube a tarefa de divertir o círculo do rei. Para isso, recebia uma espécie de licença, ou de salvo-conduto, que lhe permitia difamar, insultar, esculhambar quem fosse. “Podia dizer que fulano dava para beltrano, ou que sicrano era um covarde filho da puta. O bufão era inimputável. Não era para ser levado a sério.” Além do mais, costumava ser fisicamente diferente das demais pessoas. Em geral era um anão, alguém deformado ou identificado com algo inferior ou ridículo. Suas roupas tinham guizos, adereços, itens carnavalizantes que o distinguiam das pessoas tidas como sérias e respeitáveis.
Tudo somado, o bobo da corte cumpria um papel corretivo: não era “um transgressor dos costumes”, mas, antes, “um corretor moral”, um elemento que servia a determinada estrutura de poder, reproduzindo-a justamente à medida que a avacalhava segundo as regras estabelecidas.
Ridendo castigat mores. Laerte recorreu à máxima em latim (algo como “o humor corrige ou castiga os costumes”) para lembrar que, etimologicamente, o verbo castigare deriva de castus e também quer dizer “tornar casto”. Fez então a ponte histórica com a atualidade: no seu entendimento, certo humor praticado hoje com muito êxito é herdeiro do bufão. Goza da mesma imunidade do palhaço da corte para “tornar castos” os costumes, ou seja, repisar preconceitos. Mas, diferentemente do bobo original, esse comediante contemporâneo se beneficia “da falta de fronteira entre a piada e a realidade, entre o discurso construído e a espontaneidade de quem pensa realmente daquele jeito”.
Indo e vindo pelo palco, àquela altura Laerte já se referia explicitamente à stand-up comedy – a “gente como Rafinha Bastos”: “Primeiro ele fala que mulher feia tem que agradecer quando é es-tuprada; depois acrescenta que não é possível que achem que ele realmente pensa assim: ‘Eu estava fazendo humor!’ Essa nebulosidade é do interesse dessa linguagem”, sustentou.
Para ilustrar o que dizia, o cartunista exibiu um dos três filmes que havia selecionado, um vídeo do humorista Marcelo Selingardi que fazia sucesso na internet: um rapaz se apresenta diante da câmera e faz questão de dizer logo de saída que é hétero, mas que ser gay não tem nada de mais. Conforme o depoimento avança, ele vai enumerando suas experiências homossexuais, atribuindo-as todas não ao próprio desejo, mas ao fato de acompanhar um amigo gay em suas aventuras, atitude liberal a comprovar como ele, narrador hétero, é tolerante e progressista. Contadas como se fossem ocorrências meramente casuais, as confissões vão numa escalada (abraço, beijo, masturbação, sexo oral), sempre acompanhadas de palavras contra o preconceito e do bordão “É da cultura deles”, até culminar com a admissão de sodomia do narrador.
Ao final, a pequena plateia reunida na Abrat ria em coro do falso hétero moderno e compreensivo.
“Esse filme que a gente viu é estranho”, disse Laerte. E se pôs a  explicar: “Existe um primeiro personagem evidente. Existe um segundo personagem, que é a armadilha em que ele caiu. E existe um terceiro personagem, que é a plateia que vê tudo e diz: ‘Ha-ha o cara é gay e não percebeu que é gay.’ Existe, ainda, um quarto personagem, que somos nós pensando: esse cara construiu habilmente um discurso, em que o conceito vai e vem, vem e vai, e você fica pensando: do que é que estou rindo? Estou rindo de quem?” A graça de instantes atrás havia se dissipado.
Laerte contou que já tinha se manifestado nas redes sociais contra o filme. Acusou-o de ser uma “combinação perfeita de preconceito fingindo que não era preconceito para afirmar o preconceito”. Selingardi, o autor, reagiu furioso. Afirmou que Laerte não tinha entendido nada e estava atuando como “fiscal de conteúdo”. A resposta abalou o cartunista. “Escrevi para ele, disse que talvez ele tivesse razão, que eu posso ter agido mesmo como fiscal de conteúdo, e pedi desculpas.” Selingardi não respondeu e excluiu Laerte da lista de amigos no Facebook.
“Com essa minha segurança toda, basta uma fagulha para me desmontar inteiro”, comentou depois Laerte.
“Mas você não transmite isso”, retruquei.
“Não transmito, mas sinto. Tenho uma insegurança fodida.”
Quando soube que Laerte havia tornado público o seu segredo, Dudda Nandez tomou um susto: “Meu Deus, que merda aconteceu?!” Nas suas palavras, “ele priorizava muito o sigilo, era muito medroso”. Pegou o telefone e  ligou, ansiosa:
“Lá, que história é essa da revista? Vazou?”
“Eu saí. Vou expor para todo mundo.”
A entrevista para a revista Bravo! em que Laerte assumiu sua identidade feminina foi publicada em setembro de 2010. Ao jornalista Armando Antenore ele disse que sua “predileção” se insinuava havia séculos, mas tinha se manifestado “com todas as letras apenas em 2009”. Revelou que o novo hábito es-tava provocando nele “um prazer indescritível”. E acrescentou: “Não planejo mudar de gênero definitivamente. O crossdressing, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites.”
A partir daí, foi uma avalanche. Ao longo dos últimos dois anos e meio,  Laerte concedeu incontáveis entrevistas. O excesso de visibilidade talvez tenha ofuscado a percepção de algumas mudanças de ênfase na maneira como ele vê sua transformação desde que a tornou pública.
A expressão crossdresser, usada como referência pessoal, praticamente sumiu do seu vocabulário, substituída por travesti. A frase “Não planejo mudar de gênero definitivamente”, na Bravo!, também ficou com o prazo de validade vencido.
Primeiro, em termos práticos, porque Laerte desde então só aprofundou sua mudança e só pensa em aprofundá-la.
Segundo, em termos conceituais, a ideia de um gênero cristalizado, de uma identidade masculina ou feminina definida e definível de uma vez por todas, não passa, para ele, de ilusão, contra a qual tem se insurgido. Nesse ponto, apesar de repetir que sua vida intelectual se baseia em “chutação” e “achismo”, o cartunista se aproximou naturalmente das ideias da teórica feminista Judith Butler, autora de livros que norteiam discussões nessa área, como Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade (publicado originalmente em 1990) e Bodies that Matter (1993).
Butler concebe o gênero como algo em permanente movimento, instável, movediço – e no limite indefinível. A prosa encrespada da autora, que cultiva o mesmo gosto pela obscuridade de certa filosofia  pós-estruturalista francesa e da versão francesa da psicanálise, fica mais palatável quando Laerte se põe a traduzi-la em insights para o seu idioma:
“Sou uma mulher em caráter experimental.”
Ele não cogita se submeter à cirurgia para mudar de sexo. “Não penso, não. Muita mão de obra, muita mexida, me dá medo. Fora que não estou exatamente em conflito com a minha genitália.” Mas Laerte planeja fazer implante de seios. “Eu vou pôr peito. Quero investigar melhor, saber toda a dimensão do que é fazer isso. É uma intervenção cirúrgica. Na minha idade não dá mais para fazer pela via hormonal. É jogar hormônio fora, não funciona.”
Em outubro do ano passado, o cartunista passou por uma cirurgia de redução da próstata. Sentia muitas dores e uma sensação de angústia antes da operação. “O urologista disse que pelos próximos dez anos não precisarei mais me preocupar com o assunto. Eu não conseguia mais fazer xixi sentado. Agora consigo. Sou ambidestro”, disse, rindo, e me fazendo rir ao tratar de um assunto delicado.
Na maior parte do tempo, Laerte é uma figura muito séria, de fisionomia triste, marcada pelos sulcos na face, olhos negros e miúdos ligeiramente espantados. Seus sorrisos chegam quase sempre sem avisar, como se fossem descargas elétricas súbitas de uma cabeça de alta voltagem, que produz faíscas de humor mais rápido do que é capaz de controlar. Ri menos dos outros que de si. Mas não prepara as piadas – elas simplesmente pipocam, como tiros vindos do nada.
“Podemos falar da sua próstata na piauí?”
“Tudo bem. Tudo é público. Minha próstata é pública.”
A colocação de peitos, prosseguiu, vai custar entre 8 e 10 mil reais. “Foi o que custou minha próstata. Só que o di-nheiro da próstata eu pedi para meus pais. Não tinha grana, precisava fazer rápido. Não vou pedir peito para meus pais.” (Laerte ganha entre 13 e 15 mil reais por mês. Cerca de um terço desse valor vem do salário que recebe da Folha. O restante se deve a direitos au-torais dos livros e a trabalhos comofreelancer, que oscilam.)
Bastam alguns segundos para reconhecer o cartunista na fisionomia de Maria de Lourdes de Freitas Gordinho, ou apenas dona Lila, como ela é chamada por todos. Em poucos minutos o interlocutor percebe que está diante da mesma lepidez mental, das mesmas risadas inesperadas, do mesmo jeito do filho. A mãe de Laerte é uma senhora miudinha – de apenas 1,44 metro. Apesar da escoliose que lhe roubou 10 centímetros de altura, é serelepe e  não aparenta ter seus 86 anos.
Na terça-feira de Carnaval ela estava em casa com o marido, o geólogo aposentado pela usp José Moacyr Vianna Coutinho, à beira de completar 89 anos. Dona Lila se formou no antigo curso de história natural da usp, mas nunca exerceu a profissão. “No primeiro ano éramos vinte. No ano seguinte, seis mulheres e um carinha, que dizia ‘Vocês são meu harém!’”, recordou, soltando uma gargalhada gostosa.
Os pais de Laerte completaram 64 anos de casados em fevereiro. Moram em Alto de Pinheiros, a poucas quadras da praça Panamericana, numa casa ampla, com jardim na frente, típica da classe média alta anterior à era dos muros ostensivos e dos condomínios fechados. Quando se mudaram para lá, por causa da usp, 54 anos atrás, a rua era de terra e quase não havia vizinhos. Foi onde Laerte viveu dos 7 aos 22 anos.
“Fisicamente, ele é o filho que se parece comigo. Já fomos até mais  parecidos. Algumas décadas atrás, as pessoas diziam ‘Meu Deus’. Em gênio também. A gente era muito louquinho. De falar bobagem, dar risada. Os outros filhos tinham um pouco de ciúme”, disse dona Lila, sentada no sofá da sala.
Laerte é o segundo de quatro irmãos. Mauro, o mais velho, é engenheiro e mora em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Helena, ou Lena, como todos a chamam, é fotógrafa e mora nos Estados Unidos. Foi casada com João Santana, hoje o marqueteiro mais cobiçado da República, e, depois, com o compositor Raul Seixas.
A irmã caçula de Laerte é Marília, temporã de 49 anos (dez a menos que Lena). Bióloga formada pela usp, começou a praticar levantamento de peso, o powerlifting, para combater um transtorno bipolar que a persegue há décadas. Tornou-se rapidamente uma atleta de elite e hoje detém o título mundial em uma das modalidades do esporte. Marília tem uma filha que cursa psicologia e mora na casa dos avós.
Dona Lila se ajeitou, virou o rosto um pouco de lado e falou: “Se eu disser que gosto, estarei sendo… não é bem falsa, mas escondendo um pouco. O que me dá desconforto é essa projeção dele num meio que pode… que inclui algum perigo. Tenho receio de que alguém pense mal dele. Porque não é para pensar mal do Laerte. Não é. Ele é uma pessoa com intenções sempre muito boas. Mas não forçadamente boas. Ele é naturalmente uma pessoa… boa.”
Falava devagar, cheia de pausas: “Ele tem objetivos altos. Pensa que as pessoas devem ter direitos iguais. Equitativos. Que todos têm que ter o direito de ser o que quiser.” Reiterou sua preocupação: “Eu sempre digo a ele: meu pavor é que um homofóbico te pegue. Um desastre de grandes proporções não paga por essa felicidade de se vestir. E se você ficar muito machucado? E se te quebrarem as pernas, te incapacitarem de andar?” No instante seguinte voltou a se resignar: “Mas quase todo mundo com quem eu converso aprova. Se ele quer, tem que fazer. A posição dele é essa. Respeite-se.”
O pai, José Moacyr, já havia se retirado para a saleta de tevê. De chinelo, calção e camisa social de manga curta, permaneceu na minha presença por um ou dois minutos, tempo suficiente para que pudesse ser cordial. Quando o talento artístico do filho foi invocado pela mulher, ele se apressou em dizer: “Dos desenhistas de quadrinhos, ele é o melhor. Eu acho. O melhor.” Pediu licença e saiu instantes depois. “Ele às vezes fica angustiado, mas nem comigo se abre. É uma pessoa muito fechada”, disse dona Lila, comentando que o marido não entende e não lida bem com a escolha do filho.
Não houve, propriamente, um momento em que tudo se revelou à família. As pessoas próximas de Laerte foram percebendo as mudanças conforme elas ocorriam, em doses homeopáticas, antes que tudo viesse a público. “Ele começou a aparecer com unhas pintadas”, lembrou dona Lila. “Eu olhava e dizia: ‘Laerte, não consigo parar de olhar para suas mãos. Parecem as mãos da minha mãe.’ Vi que aos poucos ele estava pondo mais enfeites. Eu brincava: ‘À medida que vou tirando os badulaques, em que estou deixando de achar graça em me enfeitar, você vê cada vez mais graça nisso.’ Ele foi acostumando a gente aos pouquinhos.”
Os depoimentos dos filhos de Laerte se parecem muito com o da avó: “O pai sempre foi diferente. Sempre brincou com essa coisa de bissexualidade e feminilidade. Uma vez, assistindo a Confissões de Adolescente, pedi para ele passar batom, e ele passou numa boa. Ele sempre disse que todo mundo tem um pouco de gay”, contou Laila, a caçula, de 23 anos, que é quem cuida das finanças do pai e soube me informar, a pedido de Laerte, o quanto ele ganha. “É claro que no início foi chocante, mas ele preparou a gente aos poucos. Tinha peruca em casa, usava brinco, cabelo comprido – isso tudo antes de ficar toda montada”, disse Laila.
Com 33 anos, Rafael é cartunista como o pai. Usa barba e tem o temperamento expansivo – é frequente vê-lo abrir um sorriso largo no rosto enquanto fala. “Fico feliz, sou grato, porque isso nos deu espaço de manobra”, disse, referindo-se ao desvelamento gradual de Laerte.
Sentado num banquinho da cozinha do estúdio que divide com outros sete artistas gráficos, na Pompeia, Zona Oeste de São Paulo, Rafael recordou as frases que ouviu, ainda garoto: “Não vou ser o pai que você espera que eu seja. Vou ser mais um amigo.” Na hora foi difícil: “Como assim? Não quer ser meu pai!? Mais tarde percebi que ele tinha essas limitações mesmo. Nunca quis fazer a figura do macho alfa, da autoridade. Nos tornamos grandes amigos.”
Rafael caminhou até a área de serviço, nos fundos da cozinha, e acendeu um cigarro. Tentou dimensionar o alcance da mudança do pai: “Ele se desfez de uma série de coisas, pôs em risco a carreira e a imagem que construiu. Isso tudo não pode ser um golpe de vaidade, uma coisa passageira, fortuita. É muito o que está em jogo.”
Dona Lila não faz o gênero sentimental. Mas não se conteve ao falar da relação entre Rafael e o pai: “Ele lida muito bem com o Laerte. Lida com amor. Ele abraça o Laerte assim…”, ela meneou a cabeça e fez o gesto de quem enlaça com um dos braços um corpo imaginário, como se o acolhesse em seu ombro.
Laerte contava 18 anos quando teve a primeira namorada. “Começamos a namorar porque pensei que ela fosse um menino. Era uma mulher linda. Na época, tinha 14 anos e parecia um menino lindo.” Casou-se com ela, depois de dez anos de relacionamento. Durou apenas três meses.
O segundo casamento teve duração de uma década. Além de Rafael, desse relacionamento nasceu Diogo. Casou-se ainda uma terceira vez, com sua mulher já grávida de Laila. E, de novo, a história expirou depois de dez anos.
Desde então Laerte mora sozinho. Quando jovem, ainda adolescente, ele achou que fosse “100% gay”. “Comecei minha vida sexual com homens e continuei durante um tempo com homens. Foi muito perturbador para mim”, diz ele, alongando o u de muito. “Vendo a minha trajetória, eu penso em trajetórias clássicas de gay reprimido. Todas as minhas relações homossexuais foram clandestinas. Por outro lado, também curti as mulheres e os relacionamentos heterossexuais que eu tive.”
Mais ou menos na mesma época em que começou sua transformação, em 2004, Laerte iniciou um namoro. “Quando eu falei que gostava de me vestir de mulher, houve uma crise. Depois ela me deu esse colar”, contou, apontando para o pescoço. “Eu já sabia que era bi, não estava mais a fim de contemporizar. A proposta era um namoro avançado. Mas as relações têm uma dinâmica própria, que as empurra para o campo da caretice, onde todo mundo se sente mais confortável – e o resultado é crise”, resumiu. Nos últimos meses, o namoro caminhava para se converter em amizade. Tuca, como é conhecida, trabalha na área de exposições e eventos do Centro Universitário Maria Antonia, da USP, e preferiu não falar a este perfil.
Entre o início do travestismo dentro de casa – até então intermitente – e a entrevista em que assumiu sua persona feminina está o acontecimento mais traumático da vida de Laerte: a morte do filho Diogo, aos 22 anos, num acidente de carro, no Carnaval de 2005. A associação entre a tragédia e a metamorfose do cartunista foi feita ou insinuada inúmeras vezes nos últimos anos. “Já ouvi isso de forma maldosa”, disse.
“A morte do Diogo de maneira alguma me alucinou. Não me tirou a razão nem me deixou enlouquecida. Não foi isso.” Laerte parou um segundo e respirou mais fundo: “Certas coisas mandam tudo para o espaço. Simplesmente não fazem sentido dentro de uma ordem moral ou espiritual. Eu já não era religiosa. Fui, no final da infância, início da adolescência. Eu ia à missa, fazia questão do código moral católico. Quando o Diogo morreu, eu já estava longe disso. No entanto, de alguma forma, a gente guarda uma religiosidade, uma ordem de coisas que nos são sagradas, ou imanentes, ou permanentes, ou inatas. E isso tudo realmente perde sentido. Você não precisa ingressar no terreno da loucura para pôr em questão todas essas coisas.”
Se o episódio teve efeito prático sobre a transformação de Laerte, foi no sentido de adiá-la: “Eu interrompi por um bom tempo o processo de busca do meu feminino e da transgenereidade.”
Dona Lila em nenhum momento estabeleceu um nexo entre as duas coisas. Mas fez uma menção ao impacto da morte de Diogo sobre o filho:
“Depois que o menino dele morreu, ele ficou muito estranho. Caiu numa… enfim [ela suspirou]. Numa coisa dolorosa que nem sei se dá conta ainda de quanto alterou sua personalidade.”
Laerte afirma que o episódio provocou uma reviravolta no modo de compreender e realizar o seu trabalho. Algo disso já estava em gestação: em 2004, ele havia aposentado personagens famosos e ensaiado passos no rumo de tirinhas mais especulativas e filosóficas, menos ancoradas em narrativas lineares e desfechos engraçados.
A morte de Diogo o fez ir fundo nessa direção. Depois de um mês sem publicar – mergulhado na “absoluta incapacidade de desenhar” –, Laerte retomou a produção na Folha.Tentou reabilitar Os Gatos, o lascivo casal de felinos que criara ainda no final dos anos 80, mas não conseguiu. Deu, então, início a uma fase de desenhos herméticos, estranhos a preocupações discursivas.
“Não era só que não tinha humor. Não tinha tira”, diz André Conti, editor de quadrinhos da Companhia das Letras. Responsável pela edição de Muchacha, um “graphic-folhetim” que Laerte publicou em 2010 sobre os bastidores da tevê nos anos 50, Conti atualmente prepara um novo livro do cartunista. Deve se chamar Manual do Minotauro e vai reunir justamente trabalhos que documentam o pe-ríodo que se seguiu à morte de Diogo, quando ele virou pelo avesso sua criação.
“As tiras costumam obedecer a uma estrutura: você prepara, mira e atira. No caso do Laerte, elas não preparam nada, não miram para lugar nenhum e não acertam nada”, analisou Conti. Na sua opinião, ele “mudou o jogo, deu uma rasteira em todo mundo. Outros autores de tirinhas acusaram o golpe, passaram a exigir mais de si.”
“Meu trabalho mudou depois de 2005”, me disse Angeli. “Vi que o Laerte estava dando uma virada e pensei: não posso ser comum daqui para a frente. Resolvi virar junto.” A mudança mais visível ocorreu nas charges publicadas na página 2 da Folha. Angeli foi deixando de retratar personagens ilustres da política, em geral de má fama, substituindo-os por figuras carrancudas sem identidade definida – algo como protótipos do político encarnando o grotesco do poder.
Com a barba e o cabelo totalmente brancos, Angeli preserva aos 56 anos o visual, meio Bob Cuspe, meio James Dean, que exibe desde jovem. “Mas estou meio lesado”, ele falou logo no início da entrevista. “Tive uma quase depressão, um estresse profundo no ano passado. Perdi a memória, comecei a gaguejar para falar. Eu não era assim. Dá um desconto”, pediu.
Era uma sexta-feira de fevereiro e ainda havia caixas com arquivos espalhadas pelo chão de seu novo escritório – um apartamento espaçoso em Higienópolis, alugado no final do ano passado, a duas quadras de onde ele mora. Ao falar do talento de Laerte, Angeli fez elogios superlativos: “Ele sempre foi o melhor de todos nós”, “O Glauco dizia que o Laerte era de outro planeta”, “Naquela época ele já era o ídolo da gente.”
A admiração, no entanto, não se traduzia em afinidade pessoal. Ela era maior entre Angeli e Glauco, parceiros da boemia e da vida desregrada. “Éramos os dois bandalheiros. O Laerte era o cara que cuidava dos filhos, que fazia isso, fazia aquilo, era todo responsável”, disse, resumindo numa palavra que o via como alguém “implicante”. “Às vezes eu e o Glauco mexíamos com uma mulher na rua, fazíamos uma graça qualquer, e o Laerte reagia: ‘Hummm, feio isso.’ Esse hummmm durou muito tempo”, lembrou.
A homossexualidade, então, não era uma questão que eles abordavam diretamente, mas aparecia na forma de brincadeiras. A partir de meados dos anos 80, o trio se reunia com frequência no estúdio de Angeli, no bairro do Sumaré. Desenhavam juntos Los 3 Amigos – um pastiche de faroeste ambientado no México, no qual representavam versões cucarachasde si mesmos: Laertón, Angel Villa e Glauquito. As aventuras anti-heroicas do trio pelo lugarejo de Marisales duraram quase dez anos e representaram um dos momentos altos do quadrinho brasileiro.
Foi nessa época que Glauco desenvolveu o hábito de bolinar o parceiro. “Ele chegava por trás do Laerte e dizia: ‘Laertiiiiiiiinho!!!’”, contou Angeli, imitando a cena de uma encoxada. “O Laerte ficava quietinho. Não falava nada. Fui percebendo que aquilo não era só brincadeira. Pensei comigo: ele tem que sair do armário. Disse ao Glauco que era melhor não fazer mais aquilo. Mas daí quem começou a brincar foi o Laer-te: ‘Você só fala. Encoxa, mas não faz nada.’” Angeli deu risada.
Sua maneira de se relacionar com Laerte mudou nos últimos anos. “Hoje em dia a gente se vê pouco, mas a qualidade da amizade cresceu”, disse, emendando a seguir: “Antes o Laerte falava alguma coisa e eu fingia que escutava. Atualmente eu escuto muito o que o Laerte fala e penso bastante sobre o que ele falou.”
No círculo de amizades e interesses que gravitam hoje em torno de Laerte, o jornalista Sérgio Gomes parece um remanescente de outra era. “De repente, o tal do personagem passa a comandar a vida dele e as pessoas só querem falar disso e esquecem a obra”, diz ele, apontando logo o cerne do que o desagrada no encantamento que a figura de Laerte passou a exercer nos últimos anos.
Serjão, como todos o conhecem, é “o amigo que veio do frio”. Ambos se conheceram em 1970, na Escola de Comunicação e Artes da USP, onde Laerte estudou música e jornalismo, e foi Serjão quem apadrinhou a sua entrada no Partido Comunista, em 1973. “O Serjão me aliciou, como se dizia. Quando ele me apresentou um operário pela primeira vez, eu quase gozei nas calças”, lembrou-se Laerte.
Sérgio Gomes trabalha até hoje na empresa que os dois fundaram em 1978 para produzir e editar jornais sindicais, a Oboré. Foi lá, acumulando com o emprego de ilustrador da Gazeta Mercantil, que Laerte produziu inúmeros quadrinhos e charges voltados aos trabalhadores do ABC paulista. Conheceu nessa época o então presidente do sindicato dos metalúrgicos, Luiz Inácio da Silva.
Serjão é um tipo sanguíneo e à primeira vista meio abrutalhado. Usa uma barba farta, que encobre a boca mesmo quando fala, e tem prazer em se apresentar como “fumante e sedentário”. Depois de poucos minutos revela ser extremamente afável.
“Existe a questão da expectativa dos meios de comunicação em relação a esse personagem”, ele comentou, ajeitando-se na cadeira e acendendo o primeiro cigarro. Estava contrariado com uma matéria recente que havia colocado lado a lado Laerte e Marília, a irmã halterofilista: “Ele se deixou produzir e fotografar daquele jeito, funcionando como contraponto à irmã masculinizada. Passou a ideia de que essa é uma família de bizarros.”
Serjão fez uma pausa e puxou a fumaça com gosto, em dois tempos, tragando fundo: “Se esse projeto for até o fim, qual é o fim? Botar peito? Cortar o pau e construir uma boceta? Do ponto de vista de gênero é isso? Para onde vai o Laerte?” Ficou em silêncio e retomou, menos exaltado: “Essa mudança está acontecendo de forma temporã. Ele está se assumindo como mulher quando a libido já foi embora. Não é por sexualidade. É outra coisa. O Laerte está fazendo a defesa do gênero humano. Mas ele mesmo ainda não conseguiu arredondar seu discurso.”
Durante duas horas e meia, Serjão fumou dez cigarros e se serviu quatro vezes de café na garrafa térmica. Chamou Laerte de “gênio  multitalentoso” e disse que o amigo é “um Chaplin”. Reiteradas vezes, pareceu empenhado em mostrar que seu reconhecimento está sendo obtido pelas razões erradas. “Mesmo a tietagem do Laerte não conhece a obra do Laerte”, decretou.
Aos poucos, foi cobrindo a mesa em que estávamos com recortes de jornal, cartazes e panfletos feitos por Laerte nos anos de ouro do movimento sindicalista. Providenciou, entusiasmado, uma xerox do livro Ilustração Sindical, com mais de mil desenhos de Laerte, e leu, em voz alta, a apresentação que o cartunista escreveu para O Tamanho da Coisa, livro de 1985 em que reunia charges políticas.
Serjão agia como se acreditasse que daqueles papéis antigos iria emergir o Laerte que realmente importa e ninguém valoriza, a começar pelo próprio. “Ele diminui tudo o que fez. Não é demagogia. Acha de verdade que não fez nada de importante. Se fosse possível, teria eliminado a própria biografia”, falou. Suas palavras ecoavam o que o filho Rafael havia dito dias antes, com orgulho nos olhos: “Meu pai não celebra a própria história. Ele é uma figura anti-heroica.” Serjão mirou em mim e perguntou: “Você conhece a casa do Laerte? A casa dele não tem nada. O Laerte é um monge.”
Foi apenas no nosso terceiro encontro que Laerte revelou o grande desconforto que sente em relação a sua casa: “Estou morando num lugar que não é agradável. Não estou satisfeito com isso, não estou me sentindo recompensada de nenhum jeito e nem quero que isso se prolongue. Mas eu simplesmente não tenho planos nem forças para mudanças. Vou chutar, mas acho que tem algum tipo de autopunição, de autoflagelo nisso tudo.”
Estávamos no café de um pequeno sebo na praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Laerte havia acabado de gravar uma entrevista para a TVCâmara, ali mesmo na praça, dentro de uma livraria especializada em gibis.
De vestido longo com alças azul-marinho (“Minha roupa de ir à tevê”) e o leque preto de sempre nas mãos, ele prosseguiu: “Do mesmo modo que estou buscando o guarda-roupa adequado à minha pessoa e ao meu sentimento de hoje, poderia estar construindo a minha casa. Mas não tenho móvel, não tenho bosta nenhuma. Tudo é meia-boca. Acho que estou gastando toda a energia com a expressão, com os limites do meu corpo.”
Nesse momento duas jovens que passavam pela calçada o reconheceram, e uma delas disse alto: “A gente te adora!” “Obrigada”, ele retribuiu, abrindo um sorriso. E voltou: “O que me aflige é constatar que eu não quero que ninguém visite a minha casa, que eu tenho vergonha dela e não quero que ninguém veja que eu moro ali.”
Laerte mora numa rua tranquila de casas geminadas no bairro do Rio Pequeno, atrás do campus da USP, no extremo oeste da cidade. Paga 1 500 reais por mês de aluguel. Os dois apartamentos que tinha ficaram para as ex-mulheres, mães de seus filhos.
Visto de fora, o sobrado lembra um pouco um desenho infantil – bem recuado da calçada, tem a fachada amarela e a janelinha no andar superior semiencoberta por uma árvore grande e frondosa.
Ao se mudar para lá, em 2003, ele confidenciou a uma amiga ter a  sensação de que sua casa jamais ficaria pronta, arrumada. Ouviu dela que casa não tem que ficar pronta, tem que ficar viva. “Pois é, tenho dúvidas de que minha casa está viva”, comentou, rindo subitamente de si, antes de concluir: “… dado o fedor”.
O problema do mau cheiro decorre do quadro clínico de uma das duas gatas de Laerte. Cinco anos atrás, Celina e Muriel foram alvejadas com tiros de espingarda por alguém da vizinhança. Muriel convive até hoje, e aparentemente bem, com a bala de chumbinho que ficou alojada em seu ombro. Mas o tiro que atingiu Celina a deixou paraplégica. “Ela perdeu as pernas de trás. Tem cistite recorrente, precisa tomar antibiótico de doze em doze horas, não controla o mijo, suja tudo”, explicou Laerte.
A gata se arrasta pela casa. Durante parte do dia, se locomove com a ajuda de uma espécie de cadeira de rodas feita pelo cartunista. À noite, dorme na sala, trancada numa gaiola. Muriel dorme na cama com o dono. “Quando acordo, abro a porta para a Muriel e vou cuidar da Celina.”
Ele não quis investigar quem foi o autor dos disparos: “Um vizinho ficou me açulando; dizia: ‘Ele tem um táxi.’ Quatro caras na minha rua têm táxi. O que vou fazer com essa informação?”
Quando a casa de Laerte foi roubada, em maio do ano passado, fãs se mobilizaram nas redes sociais para divulgar o crime e tentar reaver dois microcomputadores e um HD que armazenava a maior parte de seus últimos doze anos de trabalho. Depois da repercussão do caso, a polícia prendeu o receptador em uma favela próxima e recuperou o HD, mas ele estava adulterado e já não tinha mais arquivo.
Comentou-se, na ocasião, que o crime poderia ter motivação homofóbica. Laerte descarta a hipótese. A investigação concluiu que o roubo fora praticado por dois jovens, auxiliados por um terceiro informante conhecido no bairro pelo histórico de pequenas delinquências. O cartunista fala do assunto com um misto de desdém e pé atrás: “Não quis entrar na onda de louvação à polícia só porque eles acharam um  receptador que estava a 50 metros da delegacia.”
Entra-se na casa de Laerte por uns poucos degraus. A primeira coisa que se vê é o piano, próximo da porta. Além dele, há a gaiola de Celina e uma estante de livros, encostadas na parede, e um cavalete com uma prancheta de desenho ocupando o centro do ambiente. Pouco iluminada, sem nenhum lugar para sentar e nenhum móvel de estar, a sala sugere mais um lugar de passagem. No fundo dela fica a cozinha e, mais adiante, o quintal, com chão de concreto e uma pequena área gramada. No piso de cima estão os  dois quartos, um na parte da frente, onde Laerte dorme, e outro sobre a cozinha, seu escritório. Há um pequeno banheiro entre eles, ao lado da escada.
O conjunto é espartano. Os cômodos superiores estavam levemente desorganizados, mas na verdade não havia muito o que organizar. A não ser por uma arara de roupas no quarto, quase nada na casa sugeria que é uma alma feminina quem a habita. Não existem sinais de vaidade no banheiro. O chão de cerâmica vermelha, o chuveiro elétrico, a pia – uma peça de louça branca fixada contra a parede, sem bancada ou qualquer adorno em volta, sem nenhum cosmético ao alcance da vista –, tudo parecia ser a materialização das perguntas que Laerte tinha feito diante de mim, dois meses antes:
“Essa é a minha casa, é o que eu chamaria de lar? Quando eu viajo e volto para casa, eu me sinto voltando para casa? A resposta é não. Eu me sinto voltando para um lugar em que estou dormindo. Não sinto que seja meu lar.” Fez uma pequena pausa e continuou: “Então, qual foi meu último lar? Do tempo em que era criança, talvez. Mas a casa dos meus pais hoje não tem nada a ver com meu lar. Às vezes fico pensando: eu sou assim mesmo? Será que estou condenado a ser gerido por mim?”

Fonte: revista Piauí edição 79 – abril de 2013робот андроид купитьспециалист по раскрутке сайтовgif jpeg pngпод ключ укладка паркетапрививка от желтой лихорадкиkilimanjaro heightтанзаніяФОТОЛОВУШКИLoredaDialog WC-17U Black

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