Home » Sugestões » Livros » Comorbidades Psiquiátricas e Transexualismo

Comorbidades Psiquiátricas e Transexualismo

Comorbidades Psiquiátricas e Transexualismo

Alexandre Saadeh

A escolha de um nome reflete um sistema de valores, crenças ou símbolos adotados. Entre transexualidade e transexualismo, neste capítulo, manterei o uso do termo transexualismo e explico o por quê. Transexualismo apesar de ser um termo médico antigo e entrando em desuso, é de uso corrente como diagnóstico no Brasil e configura, neste momento histórico, um transtorno mental que pode e deve ser tratado e acompanhado. Se assim não fosse. poderíamos pensar que tudo se trata de uma escolha pessoal e a cirurgia uma questão cosmética, estética. o que não é uma verdade. Quem trabalha e acompanha esses indivíduos tem contato cotidiano com o sofrimento, a exclusão e a discriminação aos quais são submetidos. Por isso, mantenho o termo transexualismo. para caracterizar um transtorno que, por enquanto, precisa de avaliação, acompanhamentoe tratamento médico. Se não fosse uma alteração e sim uma mera variação da normalidade, para que um “tratamento”? Bastaria uma cirurgia que seria no máximo estética, eletiva e não-resolutiva, se pensarmos na estabilidade e saúde psíquica do indivíduo.

Transexualismo, disforia de gênero, transtorno de identidade sexual, transtorno de identidade de gênero, Transgênero, transexualidade. Todos os nomes que se referem a um estado no qual uma pessoa não se reconhece em seu sexo anatômico de nascença. Algo tão distante da realidade concreta do dia a dia que nos assombra e causa reações de oposição, incompreensão. “É uma farsa” é uma das primeiras idéias que nos vêm à cabeça: “quer nos enganar”, a seguinte. A avaliação do sofrimento e da sensação de inadequação é que deve nos guiar se quisermos de alguma forma intervir no processo.

Um trabalho que não pode e nem deve ser visto unicamente do ponto de vista médico-psiquiátrico mas que deve considerar todos os aspectos da vida da pessoa. Contudo a elucidação diagnóstica é fundamental para não cometermos erros.  Conhecer o transexualismo e suas variáveis ou mesmo os quadros que se assemelham é o que deve nortear a primeira etapa do acompanhamento.

A associação entre transexualismo e outros transtornos mentais não é incomum pois como se desenvolve alguém que se sente muito diferente habitando um corpo que não reconhece como legitimamente seu e criando-se numa identidade que não deveria ser a sua? Muitas coisas podem gerar conseqüências importantes na vida adulta já que os transtornos de identidade de gênero ou sexuais começam na infância, estabelecem -se na adolescência e se mostram exuberantes na fase adulta da vida.

Iniciaremos o capitulo com os diagnósticos diferenciais, pois a separação de quadros clínicos distintos auxilia na identificação do transexualismo e outros quadros psiquiátricos possivelmente associados (comorbidade).

Diagnóstico Diferencial

Esse tópico se configura especialmente importante, pois sendo o diagnóstico de transtorno de identidade de gênero ou mesmo o de transexualismo eminentemente clinico, com base em entrevista, anamnese e acompanhamento subseqüente, faz-se fundamental a diferenciação de outras possibilidades clínicas e psiquiátricas no seguimento clínico desses indivíduos.

Segundo Saadeh (2004) a origem, a fundamentação e a caracterização, o desenvolvimento e o acompanhamento de um transexual é completamente distinto quando comparado ao de um homossexual, travesti ou mesmo de um psicótico. Portanto, a precisão diagnóstica é muito importante. Outro fator a ser considerado é a cirurgia de redesignação sexual ou transgenitalização, procedimento radical que deve ser indicado unicamente para pacientes que se enquadrem na categoria especifica que se beneficiará dela: no caso, os transexuais. Sendo assim, cabe uma diferenciação de quadros com sintomas de transtorno de identidade de gênero com quadros de reais transtornos de identidade de gênero. Os primeiros apresentam queixas de insatisfação com seu sexo anatômico, mas com quadros de outras sintomatologias psicopatológicas importantes: já um transtorno de identidade de gênero real apresenta essa insatisfação, mas sem apresentar delírios, alucinações ou outras sintomatologias que induziriam a pensar em outros diagnósticos muitas vezes, mais graves. É importante dizer que buscar a cirurgia de redesignação sexual não é sinal característico ou patognomônico de transexualismo.

Alguns estudiosos por meio de pesquisas com essas categorias de pacientes, têm oferecido contribuições significativas para a elaboração dos diagnósticos diferenciais. Meyer (1974). baseado na avaliação de 67 pacientes masculinos que buscavam a cirurgia de redesignação sexual afirma que muitos procuravam a cirurgia como forma de superar depressão ansiedade e psicose borderline. Outros perseguiam a cirurgia com sentido de atuação sadomasoquista ou de outras perversões. Alguns tentavam escapar do estigma da homossexualidade intolerável.

Além dos fatores motivacionais, muitos indivíduos com sintomas de transtorno de identidade de gênero são descritos como esquizóides ou depressivos crônicos, tendo transtorno de personalidade borderline e poucos como psicóticos ou oligofrênicos.

Lothsteitt (1979) preocupado com indicação cirúrgica para pacientes idosos, fez estudo com travestis e transexuais com mais de 52 anos de idade. Concluiu que para a população transexual a cirurgia pode ser benéfica apesar das dificuldades decorrentes da idade. Já em relação ao grupo de travestis, a indicação cirúrgica deve ser muito estudada e em quase todos dos casos contraindícada.

Wise e Meyer (1980), discutindo casos de travestis jovens e idosos. Propõem alguns critérios diagnósticos para os travestis que se tornam disfóricos em relação ao gênero:

•Desejo de cirurgia de transgenítalização sexual.

•Evidência de desejo e vontade de longa duração de se transvestir.

• História de longa duração. que pode ou não se estender até o presente. De excitação quando transvestido.

•Ausência de doenças psicóticas ou maníaco-depressivas.

•História de longa duração de busca de uma inclinação sexual masculina e ativa e. por outro lado. no passando permaneceu normalmente com desejos femininos secretos, em um contraste marcante.

•Exclusão evidente de outras variantes clínicas.

Esses pesquisadores indicam a possibilidade desses indivíduos se enquadrarem em uma síndrome Borderline e do desejo de cirurgia de redesignação sexual ocorrer em condições de estresse.

Levine e Lothstein (1981) após um período de três anos utilizando métodos psicométricos e entrevistas clínicas com 51 homens que buscavam a cirurgia de transgenitalização sexual, encontraram:

•Setenta e oito por cento dos pacientes possuem patologias de caráter ou transtornos de personalidade sendo 47% deles classificados como marcantes e 31% como sutis. Os diagnósticos mais comuns são: esquizóide e borderline; outros diagnósticos que podem ser incluídos são: narcisista, passivo-dependente, paranoide e obsessivo-compulsivo.

•Seis por cento são psicóticos.

•Oito por cento dos pacientes têm anormalidades que contrariam as descrições clínicas.

•Oito por cento dos pacientes exibem apenas disforia de gênero.

Os mesmos autores afirmam que mulheres com disforia de gênero são mais saudáveis que homens com disforia de gênero.

Brown (1990) ao fazer revisão sobre disforia de gênero encontra como diagnósticos diferenciais desta categoria:

•Transexualismos primário e secundário.

•Travestismo com depressão ou regressão (estresse).

•Esquizofrenia com transtorno de gênero.

•Homossexualidade com transtorno de ajustamento.

•Homossexualidade homofóbica.

•Transformistas profissionais.

• Transtorno de personalidade borderline com questões graves de identidade de gênero.

•Transtorno dismórñco corporal.

•Transtorno de identidade de gênero, tipo não-transexual.

•Transtorno de identidade de gênero atípico.

•Adaptação ambígua de identidade de gênero.

•Simulação.

Manderson e Kumar (2001) retomam um aspecto importante e sempre presente nas avaliações diagnósticas: uma esquizofrenia pode se manifestar com sintomas de transtorno de identidade de gênero.

A exclusão de doenças que podem se confundir com transtorno de identidade de gênero se faz mais fundamental quando se sabe que não existem critérios precisos de diagnóstico para o quadro e, portanto, o risco de má indicação cirúrgica ou mesmo errônea é significativo. O cuidado e a tranqüilidade nas avaliações de candidatos à cirurgia ajudam a excluir doenças como esquizofrenia, oligofrenia, transtorno dismórfico corporal, além de impedir lesão física em indivíduos homossexuais ou transformistas.

Comorbidade

Esse tema importante na delimitação e caracterização da alteração e sua relação com outros transtornos psiquiátricos está longe de ser unânime sendo, portanto, área a ser arduamente pesquisada na psiquiatria e nas disciplinas interessadas em estudar o transexualismo.

A correlação entre esquizofrenia e transexualismo secundário é levantada por Caldwell e Keshavan (1991). Afirmam que a relação entre transexualismo e outras doenças psiquiátricas é pouco clara e que a esquizofrenia é um tema a ser mais bem pesquisado sugerem três caminhos:

•Os dois estados são síndromes distintas que podem ocorrer simultaneamente.

•Transexualismo é uma forma de esquizofrenia.

•Transexualismo é uma forma não-específica de psicopatologia

Outros autores revelam preocupação com possíveis diagnósticos associados transtorno de múltiplas personalidades (Modestin e Ebner. 1995) e transtornos alimentares (Becker e Mester, 1996; Hepp e Milos, 2002) – e que talvez tenham relação com o transtorno de identidade de gênero, contudo, nenhuma evidência maior de associação é relatada em nenhum dos artigos pesquisados.

Em relação aos transtornos de personalidade, Bodlund et a1. (1993) relatam que, enquanto na população geral existe prevalência de 10% de transtornos de personalidade, entre os transexuais ela chega à cifra de 26%. Os transtornos mais encontrados são: paranoide, esquizotípico e borderline. Segundo os autores ao contrário do que se acredita, os transexuais masculinos não têm mais traços borderline nem mais psicopatologia em geral nem pior prognóstico que os transexuais femininos. Os autores explicam esses resultados encontrados como decorrência das características de desenvolvimento de vida dessas pessoas e como conseqüência das reações negativas e discriminatórias da sociedade. Esses dados são compatíveis com os encontrados por Cohen et al. (1997) em uma população transexual adolescente holandesa.

Roberto (1983) em artigo ainda atual acerca do diagnóstico e tratamento do transexualismo, afirma que os diagnósticos de transtorno de personalidade histérica, transtorno de personalidade paranoide e de depressão são comuns nessa população.

Em aspectos mais amplos Brown e¡ al. (1996) encontraram em 26% da amostra populacional de 188 individuos que se travestiam (transexuais, travestis e transgêneros) depressão, ansiedade,  descontrole nervoso e abuso de substâncias químicas.

Já Cole et aL (1997) estudando 318 transexuais masculinos e femininos, encontraram em sistemas classificatórios de transtornos mentais para ambos os grupos:

•Em eixo I: depressão como o transtorno mais comum e, em seguida, transtorno bipolar e esquizofrenia.

•Em eixo II: transtorno de personalidade borderline como mais freqüente e, em segundo lugar, 0 transtorno esquizóide.

Completam afirmando que o grupo de indivíduos com transtorno de identidade de gênero aparenta ser relativamente “normal” em termos de diagnóstico de comorbidade de problemas psiquiátricos”. De fato, a incidência de problemas psiquiátricos reportados é similar à encontrada na população geral” (Cole et al., 1997).

Por fim, Campo et al. (2003) relatando pesquisa realizada com psiquiatras holandeses que trabalham com indivíduos com transtorno de identidade de gênero informa que dos 584 pacientes aferidos, 39% (225) tinham como diagnóstico primário transtorno de identidade de gênero: 61% (359) tinham comorbidade com outros transtornos psiquiátricos sendo que em 75% (270) destes o transtorno de identidade de gênero era interpretado como secundário a outro transtorno psiquiátrico como: transtorno de personalidade, transtorno de humor, transtorno dissociativo e transtorno psicótico.

Pelos dados apresentados, é ainda confusa e deve ser pesquisada em paralelo à busca de uma objetivação diagnóstica capaz de diferenciar quadros e revelar transtornos de identidade de gênero e suas relações com outras doenças psiquiátricas.

Além disso, confusões entre os diversos tipos de transtornos de identidade de gênero e o transexualismo podem levar a erros de diagnóstico e, portanto, de indicação de tratamento. Apesar de alguns autores (Purí e Singh. 1996; Marks e Mataix-Cols, 1997: Marks et al., 2000) relatarem tratamentos medicamentosos ou não eficazes e específicos para Casos isolados de transtornos de identidade de gênero, o diagnóstico principal é que deve ser bem formulado e tratado.

Puri e Singh ( 1996) descrevem um caso de esquizofrenia que apresentava como sintoma delirante um transtorno de identidade sexual. Tratado com Pimozide, apresentou melhora.

Já Marks e Mataix-Cols (1997) descrevem um caso de transtorno obsessivo-compulsivo com sintomas de transtorno de identidade de gênero que apresentou melhora significativa, quando o transtorno ansioso foi adequadamente tratado. Anos depois Marks et al. (2000) descrevem o mesmo caso e acrescentaram mais cinco descritos como disforia de gênero que remitiram durante um período prolongado de tempo sem medicação ou psicoterapia. Após esse período de remissão todos os cinco relatos naturalmente retomaram os sintomas de disforia de gênero (quatro vivendo parcialmente ou integralmente como mulher e um caso de transexualismo feminino. vivendo como homem)

Outro artigo (Daskalos, 1998) relata mudanças de orientação sexual e não de identidade de gênero em seis transexuais masculinos, ou seja, deixaram de lado a preferência por homens, preferindo então mulheres.

Barlow et a1. (1979) relatam três casos de mudança de identidade de gênero, com um seguimento de seis anos e meio. O tratamento proposto foi o de psicoterapia comportamental para os três e em um único caso associado ao uso de amitriptilina e diazepam.

Ao que tudo indica, o crucial é fazer um diagnóstico bem feito, excluindo sempre outros transtornos psiquiátricos importantes que podem ocorrer com sintomas de transtorno de identidade de gênero. Feito isso, concluído o caso como sendo de transexualismo, avaliar sempre a presença de depressão, ansiedade e ou transtorno de personalidade associados. Vale lembrar que o uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas pode também se fazer presente e ser importante na avaliação e evolução do quadro.

 

REFERÊNCIAS

BARLOW. D. H.; ABEL. (i. G.: BLANCHARD. B. B. Gender identity change in transsexuals. Arch. Gen. Psychíatry, v. 36. n. 9. p. 1001-1007. 1979.

BECKER. D.: M R. Further insights into transsexualisnt. Psychoprttowgir, v. 29. p. 1-6. 1996.

BODLUND. O.; KULLGREN, G.; SUNDBOM, E.; HÕJERB/\CK T. Personality traits and disorders among tmnssexuzils. Acta lkychiatr. Scand.. v. 88, p. 322-327. 1993.

BROWN, G. R. A review of clinical approaches to gender dysphoria. j. Clin. Psychíatrj’, v. Sl . n. 2. p. 57-64. 199o.

BROWN. G. R.: \W/ISF. T. N.: COSTA. P. T.: HERBST’. l. H.: FACAN. R. l.; SCHIMIDIT. C. W. Personality characteristics and sexual functíoning of 188 cross-dressing men. I. .Nem. Mem. Dis., v. |84, n. 5. p. 265-273. 1996.

CALDWELL. (j.: RTSHAVAN. M. S. Schizophrcnia with secondary transscxualistn. (Jan. l. Psvchíatry. v. 36, p. 300-301. 199 l

CAMPO. i.: NIIMAN. H.: MERCKLBACII. H.: EVILRS. C. Psychiatric comorbity of gender identity disorders: a survey among Dutch psychialrists. Am. l. Pswfhiatri’, v. 60, p. 1332-1336. 2003.

(LOHEN. L.: DE RUlTliRS. (I.: RINGELBERG. H.; (JOHEN-KIÉFFRNIS. P. il’. Psychological functioning oi’ adolescent transsexuals: personality and psgxchopalhologyz 1. Clin. Psycho!” v. 53. n. 2. p. 187-196. 1997.

COLE. C. M.: WBOYIJÉ. M.; EMORY. L. E.: MEYER. W. l. Comorbity of gender dysphoria and other maior psychiatric diagnoses. Arch. .Sex Behav.. v. 26, n. l. p. 13-26. 1997.

DASKALOS. C. T. Changes in sexual Orientation of sex heterossexual male-to-female tmnssexuals. Arch. .Sex Behav., v. 27. p. 605-613. 1998.

HEPP. U.; MlLOS. G. Gender identity disorder and eating disorders. Im. j. Eat. Disord.. v. 32. p. 473-478. 2002.

LEVINE. S. B.; IDTllL-BTElN. L ‘Iranssexuaiism or the gender dysphoria syndrnmes. I. 58,1′ Marim¡ Ther., v. 7. n. 2, p. 85-1 13. |98|.

DTHSTEIN, i.. M. Group therapy with gender-dysphorie patients. Am. l. Psjvchorlzer.. v. 33. n. l. p. 67-81. 1979.

MANDERSON, L.: KUMAR. S. Gender identity disorders as a rare manifestation of schizophrenia. Aust. ¡\r’. Z. j. Psychiatry. v. 35, n. 4. p. 546-547, 2001.

MARKS. l. M.; hMTAlX-COLS. D. Four-year rernission of transsexttatlisnt after comorbid obsessive-compulsive disorder improved with self -exposu re therapy. Br. I. PQVC/líílln’. v. 171, p. 389-390. 1997.

MARKS. l.: GREEN. R.: MATAIX-COLS. D. Adult gender identity disorder can remit. Compr. Psychiatry. v. 4 l. n. 4, p. 273-275. 2000.

MEYER. l. K. Clinical xrariants in appiícants for sex reassignment surgery. A rch. Sex Behav.. v. 3. p. 527-558. 1974.

MODESTIN . J.; EBNER, G. Multiple personaliw disorder manifesting itself under the tnask of transsexualisrn. lkycltopatltologv. v. 28. p. 3 l 7-321. 1995.

PURI. B. K.; SINGH, I. The successful treatment of a gender dyrsphoric patient with pimozide. Ausr. N. Z. I. Psychianjv. v. 30. n. 3, p. 422-425. 1996.

ROBERTO. L. G. Issues in diagnosis and treatment of transsexuaiism. Arch. Sex Behau.. v. 12. n. 5. p. 445-473. 1983.

SAADEH, A. Transtorno de Identidade Sexual: um estudo psicopatológica de transexualismo masculino e feminino. São Paulo. 2004. Tese – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

ExWSE. T. N.: INAEYER. l. K. ‘The border area benveerl transvestism and gender dysphoria: transvestitic applieants for sex reassignmettt. Arch. Sex Behav., v. 9, n. 4. p. 327-342, 1980

 

 

 что такое сео оптимизациякупить навигатор+видеорегистраторвидеорегистратор волгоградLT-006 Yellowтехнология укладки фанеры на деревянный полcar cover laws californiaсклады от собственникашины камавидеорегистратор лучший купить шины на авто

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *