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Shows e debates sobre temas LGBT no Grajaú, zona sul paulistana

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Show de encerramento de Liniker e os Caramelows, no dia 1° de maio

Durante todo o mês de abril, o distrito de Grajaú, na zona sul de São Paulo, recebe uma programação inteiramente voltada às questões LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). De 2 de abril a 1° de maio, a 2ª edição do projeto Periferia Trans reúne shows, espetáculos, filmes e debates. Toda a programação é gratuita.

Com curadoria de Bruno César Lopes e apoio do Galpão Cultural Humbalada, Ponto de Cultura localizado próximo da estação Grajaú de trem, o evento tem o objetivo de ampliar a visibilidade trans na periferia e promover debates sobre temas ligados à sexualidade e gênero. “Há 11 anos realizamos ações no Grajaú, dessa vez queremos pautar a questão de gênero, sexualidade e LGBT. É preciso descentralizar esse assunto”, afirma Bruno.

O tema da segunda edição do festival é “Por um corpo TRANSgressão” em referência às questões trans e como uma forma de refletir sobre o corpo como possibilidade de resistência na cidade. “Em primeiro lugar, o festival tem a intenção de unir todas nós, bichas, trans, sapatas, bis, pra juntar força no bairro onde moramos.”

A ideia nunca foi e nem nunca será a de ‘trazer cultura LGBT pra periferia’, pelo contrário, é mostrar que aqui já existe uma força cultural pulsante. Que as viadas já estão aqui causando nas ruas, nas escolas, nos equipamentos públicos, e que nosso modo de vida e de se expressar também é cultura. Em segundo lugar, temos o objetivo também de tornar o tema gênero e sexualidade uma discussão pública”, declara o curador do evento.

O festival começa sábado (2), às 21h, com o show da funkeira trans MC Linn da Favela e de Rico Dalasam, representante do movimento “queer rap”. No dia 16 de abril sobe ao palco a banda As Bahias e a Cozinha Mineira, formada por Assucena Assucena e Raquel Virgínia. As duas cantoras transexuais apresentam o álbum Mulher, que rediscute a feminilidade e o gênero.

O destaque da programação é o show de encerramento de Liniker e os Caramelows, no dia 1° de maio, às 16h. O/a cantor(a) de black e soul music que vem fazendo sucesso na rede se define como “bicha, preta e pobre” e afirma não saber se é homem ou mulher.

A programação completa do evento está disponível no Tumblr do Periferia Trans.

Existe bicha na periferia”

Bruno César Lopes, curador do festival Periferia Trans, afirma que é preciso discutir gênero e sexo no âmbito público e que é importante entender o corpo LGBT como uma ação política e social. Confira a entrevista.

Como surgiu a ideia de promover o festival Periferia Trans?

Tudo começou quando percebi que a militância LGBT era muito calcada no centro de São Paulo. Todas as vezes em que eu tinha de participar de algum debate, tinha de percorrer mais de uma hora até o centro para participar e falar das minhas aflições daqui da periferia. Pensei: “Por que não discutir isso aqui, onde de fato vivemos?”. Dai surgiu a ideia do festival – que já está no seu segundo ano – de fazer uma grande programação artística LGBT no Galpão Humbalada, onde o grupo de teatro do qual faço parte atua, aqui no Grajaú.

Qual é o objetivo do festival?

É engraçado como o evento causa a percepção óbvia de que existe bicha na periferia. Nós existimos aqui. Estamos aqui espalhadas e acho que, em primeiro lugar, o festival tem a intenção de unir todas nós, bichas, trans, sapatas, bis, para juntar força no bairro onde moramos. A ideia nunca foi e nem nunca será a de “trazer cultura LGBT pra periferia”. Pelo contrário, é mostrar que aqui já existe uma força cultural pulsante. Que as viadas já estão aqui causando nas ruas, nas escolas, nos equipamentos públicos, e que nosso modo de vida e de se expressar também é cultura.

Em segundo lugar, temos o objetivo também de tornar o tema gênero e sexualidade uma discussão pública. Tirar a falsa ideia de que sexo é algo do âmbito estritamente privado. É preciso discutir essas questões no âmbito público e pressionar para que essas políticas aconteçam na periferia. Que a Dona Maria discuta sexualidade com a mesma importância que discute hospital público, creche, escola… Temos de conquistar espaços subjetivos e políticos!

Qual é a importância de debater questões LGBT em um evento na periferia?

A periferia é historicamente machista. Aliás, acho que a história da humanidade é machista. Tudo sempre narrado do ponto de vista de um homem, branco, hétero e europeu. Se você caminhar pelas ruas e vielas do Grajaú vai perceber que quem desfruta do espaço da rua são os homens, sentados no bar, jogando baralho, rindo, conversando. Enquanto isso, as mulheres, na sua maioria, ocupam os espaços domésticos, indo levar e buscar suas filhas na escola, cozinhando e limpando.

Falar de gênero e sexualidade por aqui é falar justamente disso, desse espaço que o “feminino” ocupa na periferia. Ser bicha aqui é enfrentar diariamente essas questões na pele, muito diferente do que em espaços elitistas. Sem contar as inúmeras igrejas sendo abertas a cada esquina. Não que a religiosidade seja um problema, mas sim o massacre de outras experiências em nome de um Deus. A luta LGBT precisa começar a falar de raça, gênero e classe social. A Periferia Trans tem essa intenção, de juntar toda a galera para traçar estratégias de sobrevivência juntas!

Por que o tema Por um corpo TRANSgressão?

No primeiro ano o tema foi “Meu corpo é político”. Desta vez, quisemos continuar com a discussão do corpo. Entendemos o corpo como uma ação micropolítica social. Quer dizer, quando eu caminho com este corpo bicha, com minhas roupas coloridas ditas “femininas”, quanto pinto minhas unhas, quando coloco um brinco grande numa orelha, estou fazendo do meu corpo uma grande plataforma de transgressão social. O meu caminhar até a padaria já começa a se tornar uma ruptura da normalidade.

É dessa luta que estamos falando! Do viver enquanto luta. O termo “trans” pra nós tem a ver também com transgressão, transitoriedade, transbordamento, são corpos que não aceitaram a imposição da natureza biológica e que fizeram da marginalidade uma outra forma de existência, tão potente e tão linda como qualquer outra. Como seria pensar uma periferia trans? Uma cidade trans? Uma visão de mundo trans? Estamos em busca justamente dessas respostas!

Fonte: Xandra Stefanel, especial para RBA  publicado 31/03/2016 13:44, última modificação 31/03/2016 14:23britax marathon car seat canopy

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