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Sobrevivi, por Angela Lopes

“Ai gente, porque é inevitável não fazer textão de aniversário?

Amanhã farei 41 anos e só quero dizer que, SOBREVIVI!

Sobrevivi quando fui estuprada por diversas vezes por um tio!

Sobrevivi quando fui estuprada por 4 policiais e deixada na estrada do broa sozinha!

Sobrevivi quando um caminhoneiro jogou o seu caminhão sobre mim e minha amiga Capitiola, ela não sobreviveu!

Sobrevivi as incontáveis agressões físicas sofridas nas ruas!

Sobrevivi quando uma das vezes em que precisei me prostituir e fui sequestrada por um homem louco que me deixou em Bebedouro de madrugada em plena rodovia!

Sobrevive ao extermínio do HIV que levou quase todas as minhas amigas!

Sobrevivi as incontáveis outras circunstâncias de morte!

Sobrevivi e continuarei sobrevivendo!

As mazelas precisam ser contadas, é na dor que nos tornamos pessoas melhores!”

Este texto eu escrevi em meu facebook às vésperas de completar 41 anos. O sentido era exatamente essa reflexão, completar 41 anos num país que é recordista de assassinato de travestis e transexuais e ocupa um dos piores ranking de exclusão social dessa mesma população. Sendo assim, meu sentimento é ser uma sobrevivente. Somadas ainda as circunstâncias e vivências de quase morte.

O texto repercutiu. Não é apenas uma narrativa de alguns dos poucos episódios em que na condição de transexual eu poderia ter sido morta. O texto vem em sentido de denúncia, aponta culpados e revela feridas não cicatrizadas.

Eu tinha 12 anos de idade, as manifestações da transexualidade já eram notórias, a feminilidade e a mulheridade já eram traços evidentes. Entretanto, começavam meus questionamentos e meus fantasmas internos, exatamente por não compreender a dicotomia entre a naturalidade de minhas expressões e a cobrança por um modelo comportamental de masculinidade do qual eu não se sentia confortável.

Foi exatamente neste momento, em que eu tentava me descobrir e me encontrar enquanto sujeito, num universo binário e opressor onde parecia que eu não tinha espaço, que meu tio decidiu me punir com o que havia de mais cruel e monstruoso dentro dele. Eu era uma criança, fui estuprada violentamente por várias vezes. Eu sentia que estava sendo punida em razão do meu comportamento. Minha mãe de punia, meu pai me punia, meus avós me puniam, portanto, por mais violento que fosse eu carreguei a impressão de que estarei passando por um processo expiatório por ser culpada. Essa é a sensação que nos colocam CULPA, portanto, toda e qualquer violência que sofremos, parece ser naturalizada pela culpa.

O fato é, a publicação causou muitos debates em família. Eu nunca tinha falado tão abertamente sobre este episódio. A publicação veio num momento de profunda reflexão e portanto, achei que aos 41 anos de idade não caberia mais a culpa nem tampouco o medo. E estou enfrentando o revelar do episódio com a mesma coragem que me trouxeram até aqui.

Um outro fato narrado em minha publicação, foi o fato de ter sido estuprada por 4 policiais. O ano era 1992, eu já tinha aproximadamente 14 anos. Minha identidade já se consolidava, pois neste momento eu tive outros referenciais existenciais, amigas em comum, que viviam nas ruas de São Carlos.

Naquela ocasião, existia no centro da cidade, nos arredores da Igreja Matriz, uma rua dedicada ao encontro de gays, lésbicas, travestis e toda a sorte de pessoas consideradas abjetas da noite. Entretanto, naquela época a polícia era muito mais repressiva e violenta. E não havíamos proteção do estado e de nenhuma entidade de direitos humanos. Era comum que a polícia conduzisse, especialmente as travestis, para prestar declarações na delegacia, sob o argumento penal da “vadiagem”, tipificação vigente naquela ocasião.

Em uma dessas abordagens eu fui subtraída pela polícia da rua. Foi a primeira vez que eu fui pega. Como era relatado pelas demais companheiras, era de praxe a humilhação, a violência física, a intimidação, era preciso lavrar um auto de apreensão na delegacia e logo seriamos liberadas. Mas não foi isso que aconteceu naquele dia.

Existe aqui um São Carlos uma Represa chamada “Broa”, hoje a estrada que liga é asfaltada e bem sinalizada, naquela época era uma estrada de terra e foi exatamente para onde fui levada, foi muito próximo da represa, aproximadamente 20 km da cidade. Eu era a mais jovem das travestis que ali ficavam. Eu estava descobrindo o mundo das ruas e da noite. Naquele momento eu tive a certeza do pior. Não havia justificativa para terem me levado tão longe da cidade.

Lembro que a viatura saiu da estrada principal e parou em uma entrada acessória. Quando a viatura parou eu não conseguia pensar com lucidez. Eu só tive medo, muito medo. Foi quando me fizeram descer da parte trazeira e os quatro de pronto me olhando sem nenhuma expressão. Era noite, eu não tinha uma visão clara das coisas, lembro de ter levado um tapa muito forte no rosto e de ter caído no chão de terra. Quando levantei minha cabeça para tentar visualizar o que viria a seguir, os quatro já estavam com as calças nos joelhos com seus órgãos genitais a postos.

Não me recordo durante quanto tempo tudo durou. Fui estuprada com muita violência e a mesma sensação de estar sendo punida e expiada por um pecado cometido. Aqueles momentos duraram uma eternidade. Depois de tudo achei que eu fosse ser conduzida de volta. Mas fraca, machucada, fui deixada sozinha num lugar em que eu não tinha a ideia de onde estava. Eu caminhei a noite inteira, no frio e no escuro, cheguei em casa de manhã, no silencia de quem carrega mais uma culpa.

Dos quatro policiais que me violentaram, um rosto ainda me é familiar até hoje. Este rosto eu jamais esquecerei e tenho certeza que ele é assombrado pela culpa sempre que é obrigada a enfrentar o meu olhar acusatório.

Os demais episódios aconteceram antes deste. Esta foi a última vez em que me permiti ser punida por uma condição que me foi imposta pela natureza.

A violência contra nós transexuais e travestis não cessam. Elas mudam apenas de roupagem.”

Angela Lopes

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